Nenhum partido é dono do Evangelho, à esquerda ou à direita
Pastores apoiam Lula, outros apoiam Flávio Bolsonaro: o Evangelho não tem dono partidário, e a Constituição protege essa pluralidade.
Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Opinião: este texto expressa a posição da redação.
Em 26 de agosto, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito declarou apoio à reeleição do presidente Lula, em carta aberta. Em 14 de outubro, o próprio Lula enviou uma carta às famílias evangélicas, divulgada pelo mesmo grupo. Nas duas peças, a fé aparece ao lado do voto.
Nossa posição é direta. O Evangelho não tem dono partidário. Nenhum partido, candidato ou pastor fala em nome de todos os evangélicos. Isso vale para a esquerda e para a direita.
No Censo 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contou 26,9% das pessoas de 10 anos ou mais como evangélicas. São cerca de 47,4 milhões de pessoas. Em 2010, a fatia era de 21,6%.
Um número tão grande não cabe em um bloco só. Ele cabe em famílias, bairros, igrejas grandes e pequenas, e em eleitores que pensam diferente.
Um grupo grande não vota em bloco
Ser evangélico não define o voto. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito reúne pastores e teólogos, segundo a reportagem que cobriu a carta. Ela fala por esses integrantes, não por todas as igrejas.
Do outro lado, líderes evangélicos de Goiás afirmam que vão apoiar Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), no segundo turno. Segundo o Jornal Opção, o pastor Salmo Diomar, da Assembleia de Deus Catedral da Família, cita a defesa da família e dos bons costumes entre os motivos. Esse é um argumento legítimo. Ele fala de família, tema que a carta de Lula também levanta.
O pastor Silas Malafaia também anunciou apoio. Em coluna do SBT News publicada em 3 de maio de 2026, ele escreveu: “Claro que vou apoiá-lo”. Disse ainda que tem “voo próprio”. Os dois lados têm pastores, e nenhum deles fala pelo conjunto.
A questão não é se um pastor pode apoiar um candidato. Pode. A questão começa quando a fé passa a dizer em quem Deus vota.
A Constituição separa fé e poder
A Constituição de 1988 protege a fé de cada pessoa. O artigo 5º, inciso VI, declara inviolável a liberdade de consciência e de crença. Ele também garante o livre exercício dos cultos. O inciso IV assegura a livre manifestação do pensamento.
O artigo 19, inciso I, proíbe a União, os estados e os municípios de estabelecer cultos ou igrejas. Também proíbe subvencioná-los e manter com eles relações de dependência ou aliança. Esse princípio se chama laicidade: o Estado não adota religião oficial.
Os dois artigos formam uma regra só. A fé fica livre para falar no púlpito. O governo fica à parte dela.
Segundo a reportagem sobre a carta da Frente, o grupo defende que a permanência de Lula no Planalto se alinha a valores cristãos. Já Lula escreveu que conclama os evangélicos “a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição”. Pedir discernimento é diferente de dizer qual candidato Deus escolheu. Quem diz isso confunde fé e partido, seja de que lado for.
A carta de Lula não usa a expressão “liberdade religiosa”. Ela fala de famílias, da escala 6x1, das bets e da segurança pública. Não precisa tratar do tema para ser legítima. A proteção da fé, porém, está na Constituição, e não em nenhuma carta de campanha.
O que diz a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito: Segundo o Correio Braziliense, republicado pelo Diário de Pernambuco, o apoio eleitoral não retira a “autonomia” do grupo nem sua “capacidade de diálogo”. A carta foi publicada em 26 de agosto de 2026. Não houve contato com a entidade para este texto de opinião.
Uma república saudável não pede que todos os crentes pensem igual. Pede que discordem em paz. Nenhum púlpito ou partido deve reivindicar a fé inteira para si.
No domingo, 25 de outubro, o eleitor decide o segundo turno. Quem perder não deve ouvir que foi derrotado por Deus. Quem ganhar não deve ouvir que foi escolhido por Ele. A fé evangélica brasileira cabe em mais de um voto. É isso que a Constituição protege.
Como fizemos: Usamos a reportagem do Diário de Pernambuco, de 26/08/2026, sobre a carta da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito; a reportagem do Diário do Nordeste e do Congresso em Foco, de 14/10/2026, sobre a carta de Lula; a coluna do SBT News, de 3/5/2026; o Jornal Opção, sobre líderes de Goiás; e os dados do Censo 2022 do IBGE, divulgados em junho de 2025. Acessamos as fontes em 24/10/2026. Não fizemos cálculo próprio, além de arredondar a fatia evangélica. A página do Jornal Opção não abriu na checagem, e os trechos usados vieram do resumo disponível. Os artigos da Constituição foram conferidos em textos oficiais reproduzidos em fontes jurídicas, sem cópia direta do Planalto.
Fontes
- Evangélicos progressistas declaram apoio à reeleição de Lula e criticam Flávio — Diário de Pernambuco (republicação do Correio Braziliense), 26/08/2026
- Frente evangélica declara apoio a Lula e detona Flávio: “Democracia ou autoritarismo” — Diário do Centro do Mundo
- “Temos uma coisa em comum”: Lula envia carta a evangélicos antes do segundo turno — Diário do Nordeste, 14/10/2026
- Em carta, Lula cita 6x1 e bets e pede discernimento a evangélicos — Congresso em Foco, 14/10/2026
- Líderes evangélicos de Goiás apoiam Flávio Bolsonaro e querem convencer fiéis que votam em Lula — Jornal Opção (acesso em 24/10/2026)
- Malafaia diz que vai apoiar Flávio Bolsonaro, mas não será “massa de manobra” — SBT News, 3/5/2026
- Evangélicos crescem e representam mais de um quarto da população — Diário de Pernambuco, com dados do IBGE (Censo 2022), 06/06/2025
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto



