Opinião

Pedir voto em nome de Jesus é o que a direita cristã condenava

Decreto prometido em nome de Cristo, 'irmão vota em irmão' em culto e post apagado pelo TSE: Flávio faz da fé um instrumento que a direita cristã rejeitava.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Jair Bolsonaro fala ao microfone em um palco, ao lado de um intérprete de Libras, diante de um telão com a bandeira do Brasil
O então presidente Jair Bolsonaro discursa no lançamento da Marcha para Jesus, em Cuiabá (MT), em 19 de abril de 2022 (foto de arquivo).Foto: Alan Santos / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em agosto, Flávio Bolsonaro prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. A resposta mais dura não veio da esquerda. Veio de um pastor, que chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas. Quando um pastor precisa lembrar um candidato cristão dos limites da fé, algo saiu do lugar.

Escrevo da direita, e sem constrangimento. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também defendemos a liberdade de culto e o lugar da fé na vida pública. Mas, por anos, nós, conservadores cristãos, repetimos que a igreja não é braço de governo nem de partido.

Hoje, é o nosso candidato que esquece essa lição. E calar sobre isso, só porque ele é do nosso lado, seria trair a própria pregação. A coerência que cobramos dos outros precisa começar em casa.

O nome que não se usa em vão

O mandamento, na tradução Almeida, diz: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”. Para muitas tradições cristãs, isso vai além do palavrão. Inclui usar o nome de Deus para fins que não são de Deus.

Uma eleição é coisa séria, mas não é coisa sagrada. Votar é dever cívico; adorar é outra coisa, e confundir as duas faz mal às duas.

A campanha de Flávio cruzou essa linha mais de uma vez. Em junho, na Marcha para Jesus, ele disse que o Brasil vive uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil.

Em 10 de outubro, a Assembleia de Deus de Madureira celebrou seu centenário no Maracanãzinho, no Rio. No culto, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a gritar 14 vezes “irmão vota em irmão”, segundo o Jornal de Brasília. O jornal descreveu a cena como um “pedido simulado de voto”.

Flávio, então, disse que quem pedia voto não era o bispo, mas “a igreja”. É difícil imaginar uma frase mais distante da tradição que diz separar o altar do palanque. Ela transforma a comunidade inteira em comitê, inclusive os irmãos que pensam diferente.

Fé usada como medo

Depois veio o medo. Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Segundo a CNN Brasil, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.

Há também um preço jurídico. O Movimento Brasil Laico (MBLaico) pediu ao Ministério Público (MP) que cancele a candidatura e revise a imunidade tributária da igreja de Madureira, segundo o ICL Notícias. A imunidade é a regra constitucional que protege os templos de impostos.

Não há decisão sobre o pedido. Mas o risco recai sobre a igreja, e não sobre o candidato. Quem empresta o altar a uma campanha pode pagar a conta sozinho, depois que a eleição passar.

Em maio, o mesmo grupo já havia acusado abuso de poder religioso no culto em que o pastor Silas Malafaia declarou apoio a Flávio, segundo a Agência Pública. Abuso de poder religioso é usar a autoridade de um líder espiritual para pressionar o voto dos fiéis. É exatamente o tipo de prática que a direita cristã diz rejeitar.

Sejamos justos: não há dinheiro de igreja na campanha de Flávio. Segundo o Poder360, 89% do que ele arrecadou até 1º de outubro veio do fundo do Partido Liberal (PL). O problema não é o caixa. É o uso do nome de Jesus como cabo eleitoral.

O que diz quem pensa diferente: os apoiadores de Flávio afirmam que falar de fé na campanha é expressão legítima de um candidato evangélico, e o próprio candidato sustenta que o país vive uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil. No Maracanãzinho, disse que quem pedia voto “era a igreja”, conforme o Jornal de Brasília.

Ninguém precisa gostar de Lula para enxergar isso. Basta ser fiel ao que sempre pregamos.

Faltam cinco dias para o segundo turno de 25 de outubro. O voto do cristão é livre, e é livre justamente porque Cristo não pertence a candidato nenhum. Não empreste o nome dele a quem o usa para pedir voto.

Fontes