Pedir voto em nome de Jesus é o que a direita cristã condenava
Decreto prometido em nome de Cristo, 'irmão vota em irmão' em culto e post apagado pelo TSE: Flávio faz da fé um instrumento que a direita cristã rejeitava.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Em agosto, Flávio Bolsonaro prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. A resposta mais dura não veio da esquerda. Veio de um pastor, que chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas. Quando um pastor precisa lembrar um candidato cristão dos limites da fé, algo saiu do lugar.
Escrevo da direita, e sem constrangimento. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também defendemos a liberdade de culto e o lugar da fé na vida pública. Mas, por anos, nós, conservadores cristãos, repetimos que a igreja não é braço de governo nem de partido.
Hoje, é o nosso candidato que esquece essa lição. E calar sobre isso, só porque ele é do nosso lado, seria trair a própria pregação. A coerência que cobramos dos outros precisa começar em casa.
O nome que não se usa em vão
O mandamento, na tradução Almeida, diz: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”. Para muitas tradições cristãs, isso vai além do palavrão. Inclui usar o nome de Deus para fins que não são de Deus.
Uma eleição é coisa séria, mas não é coisa sagrada. Votar é dever cívico; adorar é outra coisa, e confundir as duas faz mal às duas.
A campanha de Flávio cruzou essa linha mais de uma vez. Em junho, na Marcha para Jesus, ele disse que o Brasil vive uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil.
Em 10 de outubro, a Assembleia de Deus de Madureira celebrou seu centenário no Maracanãzinho, no Rio. No culto, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a gritar 14 vezes “irmão vota em irmão”, segundo o Jornal de Brasília. O jornal descreveu a cena como um “pedido simulado de voto”.
Flávio, então, disse que quem pedia voto não era o bispo, mas “a igreja”. É difícil imaginar uma frase mais distante da tradição que diz separar o altar do palanque. Ela transforma a comunidade inteira em comitê, inclusive os irmãos que pensam diferente.
Fé usada como medo
Depois veio o medo. Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Segundo a CNN Brasil, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.
Há também um preço jurídico. O Movimento Brasil Laico (MBLaico) pediu ao Ministério Público (MP) que cancele a candidatura e revise a imunidade tributária da igreja de Madureira, segundo o ICL Notícias. A imunidade é a regra constitucional que protege os templos de impostos.
Não há decisão sobre o pedido. Mas o risco recai sobre a igreja, e não sobre o candidato. Quem empresta o altar a uma campanha pode pagar a conta sozinho, depois que a eleição passar.
Em maio, o mesmo grupo já havia acusado abuso de poder religioso no culto em que o pastor Silas Malafaia declarou apoio a Flávio, segundo a Agência Pública. Abuso de poder religioso é usar a autoridade de um líder espiritual para pressionar o voto dos fiéis. É exatamente o tipo de prática que a direita cristã diz rejeitar.
Sejamos justos: não há dinheiro de igreja na campanha de Flávio. Segundo o Poder360, 89% do que ele arrecadou até 1º de outubro veio do fundo do Partido Liberal (PL). O problema não é o caixa. É o uso do nome de Jesus como cabo eleitoral.
O que diz quem pensa diferente: os apoiadores de Flávio afirmam que falar de fé na campanha é expressão legítima de um candidato evangélico, e o próprio candidato sustenta que o país vive uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil. No Maracanãzinho, disse que quem pedia voto “era a igreja”, conforme o Jornal de Brasília.
Ninguém precisa gostar de Lula para enxergar isso. Basta ser fiel ao que sempre pregamos.
Faltam cinco dias para o segundo turno de 25 de outubro. O voto do cristão é livre, e é livre justamente porque Cristo não pertence a candidato nenhum. Não empreste o nome dele a quem o usa para pedir voto.
Fontes
- Flávio diz que vai decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo — O Tempo
- Flávio promete declarar Brasil a Jesus, e pastor critica — Estado de Minas
- Marcha para Jesus: Flávio cita guerra espiritual — CNN Brasil
- Flávio Bolsonaro canta em culto e recebe pedido simulado de voto — Jornal de Brasília
- Estela Aranha manda Flávio apagar post que sugere que Lula fecharia igrejas — CNN Brasil
- Entidade pede investigação de Flávio Bolsonaro — ICL Notícias
- Procurador decidirá se entra com ação contra Flávio e Malafaia — Agência Pública
- Saiba quais são os principais doadores de Lula e Flávio — Poder360



