Depois da urna, as igrejas precisam ser pontes
Seja qual for o vencedor de 25 de outubro, líderes religiosos devem unir o país. A CNBB, o papa e a Constituição indicam o caminho.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Opinião: este texto expressa a posição da redação.
No domingo, 25 de outubro, o país vota no segundo turno da eleição nacional. Seja qual for o resultado, o dia seguinte vai pedir mais do que festa ou revolta. As igrejas podem ajudar o país a voltar à conversa. Esse é o papel que defendemos aqui.
Um documento recente já aponta esse caminho. Em 21 de outubro, o Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reúne os bispos católicos do país, divulgou uma mensagem ao povo brasileiro. Nela, os bispos reforçam o “respeito aos resultados das urnas” e lembram que “o voto é livre e secreto”.
No fim, o texto pede que os brasileiros construam “uma convivência fundamentada na verdade, na fraternidade e na paz”. A nota não cita candidatos. Ela fala do dia depois da apuração.
O papa Leão XIV disse algo na mesma linha. No Angelus, a oração do domingo, de 4 de outubro, ele pediu que os fiéis rezem pelo “dom da paz” e se comprometam “a construir a concórdia entre os povos”. Era o domingo do primeiro turno.
A Constituição separa fé e poder
A Constituição de 1988 protege a fé de cada pessoa. O artigo 5º, inciso VI, declara inviolável a liberdade de consciência e de crença, e garante o livre exercício dos cultos. O artigo 19, inciso I, proíbe o poder público de criar igrejas, subvencioná-las ou manter com elas relações de dependência ou aliança.
Esse princípio se chama laicidade, ou seja, o Estado não adota religião oficial. A fé fica livre, mas o governo fica à parte dela. Por isso, nenhuma igreja deve transformar a urna em sentença divina, e nenhum governo deve usar um credo como argumento.
Ter lado não dá o direito de falar por Deus
O contra-argumento é legítimo, e precisa de resposta. Líderes religiosos são cidadãos, e a Constituição garante a livre manifestação do pensamento, no artigo 5º, inciso IV. Eles podem defender candidatos. Lideranças evangélicas fazem isso à vista de todos.
Em maio, o pastor Silas Malafaia afirmou que apoiaria o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). Em coluna do SBT News, ele disse: “Claro que vou apoiá-lo”. Esse direito existe e não deve ser negado a ninguém.
Mas tomar partido é diferente de transformar a disputa em guerra. Em 4 de junho, na Marcha para Jesus, em São Paulo, Flávio Bolsonaro disse que o mundo e o Brasil “estão passando por uma grande guerra espiritual”, segundo o Money Times. Quando o adversário vira inimigo espiritual, a derrota deixa de ser política e passa a parecer castigo divino.
Esse risco não é só retórica. Um eleitor que perdeu e ouviu que o adversário é inimigo de Deus dificilmente aceita o governo eleito. Quem vence, por sua vez, corre o risco de governar contra metade do país.
O que diz a CNBB: Em nota do Conselho Permanente, divulgada em 21 de outubro, os bispos pedem “respeito aos resultados das urnas”. A mensagem está publicada no site oficial da entidade.
Ser ponte exige três gestos concretos. O primeiro é reconhecer o resultado como decisão das urnas, e não como sinal divino. O segundo é tratar quem votou diferente como vizinho, e não como inimigo da fé. O terceiro é defender as instituições da democracia: a urna, a Justiça Eleitoral e o Congresso.
Igrejas podem ter lado durante a campanha. Depois da contagem, porém, a tarefa muda. Quem pediu voto com fervor deve, depois da apuração, pedir paz com o mesmo fervor. A CNBB também lembra que o voto é livre e secreto e condena ameaças, pressões e negociação de votos. A Constituição garante a liberdade de crer. Ela não pede que a fé vire juíza das urnas.
Como fizemos: Usamos a nota da CNBB publicada no site da entidade em 22/10/2026, o Angelus de 4/10/2026 publicado pela Santa Sé, o texto da Constituição no site do Planalto e reportagens do SBT News e do Money Times. Acessamos as fontes em 23/10/2026. Não fizemos cálculo próprio. Não houve contato prévio com as pessoas citadas, que aparecem apenas com declarações públicas.
Fontes
- Conselho Permanente reforça defesa da democracia e incentiva voto consciente no segundo turno das eleições — CNBB
- Angelus, 4 de outubro de 2026 — Santa Sé
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto
- Malafaia diz que vai apoiar Flávio Bolsonaro, mas não será “massa de manobra” — SBT News
- País está passando por uma grande guerra espiritual, diz Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus — Money Times



