ComentárioEnsaio de opinião

Cursinho popular do MEC é dever do Estado, não favor

A rede do MEC atende cerca de 1% dos inscritos no Enem 2026. O programa é pequeno, mas merece virar política de Estado, com escala e avaliação.

Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com estudantes da Rede de Cursinhos Populares, em São Bernardo do Campo (SP)
Encontro com estudantes da Rede de Cursinhos Populares, em São Bernardo do Campo (SP), em 18 de outubro de 2025.Foto: Ricardo Stuckert/PR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Opinião: este texto expressa a posição da redação.

Mais de 5 milhões de pessoas estão inscritas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), cujas provas serão aplicadas em 8 e 15 de novembro. Para quem não pode pagar um cursinho, a preparação costuma ser solitária. O Ministério da Educação (MEC) mantém uma resposta a esse problema, a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP). Defendemos que ela seja tratada como compromisso do Estado, e não como favor.

Segundo a Agência Gov, do governo federal, a rede atende 1.535 cursinhos, mais de 58 mil estudantes e mais de 21 mil educadores. Cada estudante recebe R$ 200 por mês, por até oito meses, segundo a Agência Brasil. O auxílio vai, no mínimo, a 20 e, no máximo, a 40 alunos por cursinho, conforme o próprio MEC.

Quanto é pouco

O Enem de 2026 teve 5.055.818 inscrições confirmadas, segundo balanço preliminar do MEC divulgado em julho. Os cerca de 58 mil alunos da rede equivalem a pouco mais de 1% desse total. Em outras palavras, há cerca de 87 inscritos para cada aluno do programa. Essa proporção é cálculo nosso, feito com os dois números publicados.

A comparação tem limites. Os dados não mostram quantos inscritos são de escola pública ou de baixa renda. Mesmo assim, o recado é claro: o programa alcança uma fatia pequena de quem disputa a vaga.

O limite de 40 bolsas por cursinho também pesa. Num cursinho com 60 estudantes, quem não couber nas vagas fica de fora do auxílio de R$ 200, mesmo frequentando as mesmas aulas.

Política de Estado, não favor

Favor depende da boa vontade de quem governa. Política pública tem regra, edital, orçamento e prestação de contas. Essa diferença aparece quando o governo muda e o programa precisa continuar sem padrinho.

O aplicativo do MEC segue a mesma lógica. Segundo o ministro, os outros aplicativos sobre o Enem cobravam, e muitos alunos ficavam sem acesso. Um material gratuito reduz essa barreira, mas não substitui professor, aula e tempo de estudo.

A Constituição já diz que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, no artigo 205. Preparar o jovem para a prova é uma forma concreta de cumprir esse dever. É também uma aposta na escola pública como caminho ao ensino superior.

O argumento contrário tem peso e merece resposta. O primeiro é o custo. Em fevereiro, o MEC previa R$ 108 milhões para 2026, com 514 cursinhos. Desde então, a rede cresceu em novas seleções. Não encontramos o valor total atualizado, e ele deveria ser publicado.

O segundo é quem recebe. A regra prioriza estudantes de escola pública e famílias com renda de até um salário mínimo por pessoa. O teto de 40 bolsas por cursinho, porém, pode deixar alunos prioritários sem o auxílio.

O terceiro é a prova de resultado. Não encontramos avaliação independente sobre o efeito do programa na entrada na universidade. Também não localizamos críticas nomeadas ao programa. Sem esses dados, a defesa depende de confiança, e não de medição.

O que diz o MEC: O ministro Leonardo Barchini afirmou à Agência Brasil que “Os outros aplicativos que tinham sobre o Enem eram todos pagos, então, muitos dos estudantes não tinham acesso”. Ele se referia ao aplicativo MEC Enem, que, segundo ele, pode ser usado de graça por mais de 1 milhão de estudantes. Não encontramos checagem independente dessa afirmação.

Os números permitem uma conclusão. A rede é pequena perto do tamanho do Enem e ainda não tem medição pública de resultados. O que falta é escala, transparência e a lista das cidades onde as vagas existem.

Nossa posição é que o Estado deve ampliar o programa, publicar quantos alunos chegam à universidade e levar as vagas para além das capitais. Cursinho popular não pode depender da boa vontade de um governo. Deve ser parte do dever público com a educação.

Quem defende o programa também deve dizer o que ele não resolve. Ele não corrige sozinho a escola básica, não garante a aprovação e não substitui um ensino médio de qualidade. Mesmo com essas limitações, a porta de entrada para a universidade precisa ser aberta a mais gente.

Como fizemos: Usamos o balanço preliminar do MEC sobre o Enem 2026, com 5.055.818 inscrições confirmadas, divulgado em julho e noticiado pelo Vestibulando Web. Usamos também a reportagem da Agência Gov de 7/10/2026, reproduzida pelo Correio da Manhã, as reportagens da Agência Brasil de 24/02, 26/05 e 08/10/2026 e a página de perguntas frequentes do MEC sobre a CPOP. Acessamos as fontes em 24/10/2026. Cálculo próprio: 58 mil dividido por 5.055.818 dá cerca de 1,1%, e 5.055.818 dividido por 58 mil dá cerca de 87. A comparação não mostra o perfil socioeconômico dos inscritos. Não encontramos o investimento atualizado de 2026 nem avaliação independente do programa.

Fontes