Opinião

Cuidar das crianças é dever do Estado, não só da família

Com 826 mil crianças na fila por creche e a alfabetização abaixo da meta, cuidar das crianças também é dever do Estado, diz a Constituição.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Crianças pequenas de capas azuis formam uma roda em uma creche pública de Sobradinho, no Distrito Federal, com adultos observando ao redor
Crianças em creche pública de Sobradinho, no Distrito Federal, durante visita de autoridades, em 2015.Foto: Pedro Ventura / Agência Brasília / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Opinião: este texto expressa a posição da redação.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolheu o cuidado das crianças como tema da Campanha da Fraternidade de 2027. O anúncio saiu em 23 de julho de 2026, com o tema “Fraternidade e o Cuidado das Crianças”. A Campanha da Fraternidade é uma ação anual da Igreja Católica, feita no período da Quaresma.

O lema, “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe”, vem do Evangelho de Mateus (Mt 18,5). A mensagem fala de família, comunidade e fé. Este texto defende um ponto a mais: cuidar das crianças é dever do Estado, e não apenas da família e da Igreja.

Um dever de todos, com parte do Estado

A Constituição de 1988 diz que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, “com absoluta prioridade”, seus direitos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, repete a regra e inclui a comunidade e o poder público. A família vem primeiro, mas não fica sozinha.

No caso da creche, a Constituição é mais direta. O artigo 208 garante a educação infantil em creche e pré-escola, para crianças de até 5 anos, como dever do Estado. Creche não é favor de governo. É obrigação prevista na lei.

Os dados mostram a distância entre a regra e a vida real. O Retrato da Educação Infantil 2025, feito pela organização Gaepe-Brasil com o Ministério da Educação (MEC), registrou 826.371 crianças na fila por uma vaga em creche. A demanda subiu 30,6% em um ano.

O número não é o total nacional, porque reúne só os municípios que conseguem medir a própria fila. Mesmo assim, mais da metade das cidades, 52,1%, tem demanda sem atendimento. Entre bebês de 0 a 11 meses, os pedidos passaram de 123 mil para 238 mil.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 43,3% das crianças de 0 a 3 anos estavam em creche em 2025. São cerca de 4,5 milhões de crianças. É o maior índice da série, mas ainda abaixo da meta de 50% do plano anterior.

O novo Plano Nacional de Educação (PNE), instituído pela Lei 15.388, de 2026, pede atender 100% da demanda manifesta por creche. Também fixa a meta de, no mínimo, 60% das crianças de até 3 anos até o fim do plano. Ou seja, a própria lei reconhece que o Estado tem uma conta a pagar.

A alfabetização mostra o mesmo problema em outra etapa. O Indicador Criança Alfabetizada, divulgado pelo MEC em 11 de julho de 2025, mostrou que 59,2% das crianças da rede pública estavam alfabetizadas até o fim do 2º ano em 2024. A meta era 60%. Ser alfabetizado na idade certa significa ler e escrever até o fim do 2º ano do ensino fundamental.

Os argumentos contrários, e a resposta

Há um argumento sério do outro lado: muitas famílias preferem cuidar dos filhos pequenos em casa. Entre as crianças de 0 a 1 ano fora da creche, 64,1% ficaram por opção dos pais, segundo o IBGE. Essa escolha merece respeito.

A mesma pesquisa mostra outro dado. Entre as crianças de 0 a 1 ano fora da creche, 28,1% das famílias apontaram a falta de creche ou de vaga na região. Para elas, a escolha não existe. O Estado deve garantir a vaga, para que a família possa escolher de verdade.

O segundo argumento vem da política. Em 10 de julho de 2026, em evento do Partido Liberal (PL) em Fortaleza, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu vouchers para pagar vagas em creches particulares quando faltar vaga pública. Segundo o Poder360, ele disse: “elas não têm com quem deixar o filho, não têm uma creche”.

A proposta responde a uma necessidade real, e a mãe que precisa trabalhar merece resposta hoje. Mas o voucher troca a vaga pública por uma compra no mercado, e o Estado continua pagando a conta. Se a vaga é direito, ela deve ser pública, com regras claras e fiscalização.

O que diz a CNBB: Segundo a entidade, a campanha quer “promover um caminho de conversão cristã para a corresponsabilidade no cuidado das crianças”. A informação está na notícia publicada no site da CNBB em 23 de julho de 2026.

O que isso significa

A corresponsabilidade que a CNBB propõe é a mesma que a Constituição descreve. Família, sociedade e Estado dividem o dever. Quando uma parte falha, são as crianças que pagam a conta, e a fila de creche mostra isso em números.

Escola pública, Sistema Único de Saúde (SUS) e creche pública são conquistas do país. Por isso precisam ser defendidas e ampliadas. A Campanha da Fraternidade de 2027 pode levar essa discussão às paróquias. Cabe aos governos cumprir a lei.

Como fizemos: Usamos o comunicado da CNBB de 23/07/2026, o Retrato da Educação Infantil 2025 (Gaepe-Brasil e MEC), a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, com dados de 2025, o Indicador Criança Alfabetizada de 2024 e a Lei 15.388/2026. As fontes foram acessadas em 23/10/2026. Não fizemos cálculo próprio além da leitura dos percentuais. O Retrato cobre só os municípios que medem a fila, e a PNAD é uma pesquisa por amostra. Não houve contato prévio com Flávio Bolsonaro para este texto.

Fontes