Dólar a R$ 5,40 dá mais reais ao exportador e encarece insumo
Com o dólar a R$ 5,40, a soja ficou mais cara em reais, mas cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados.

Na segunda-feira (26), o dólar fechou a R$ 5,40, com alta de 8,21%, segundo o BPMoney. Foi a maior alta diária desde 1999, de acordo com o portal Ric. No mesmo pregão, o Ibovespa, índice da bolsa de valores de São Paulo (B3), caiu 13,88%, para 176.608 pontos.
A reação veio depois da reeleição de Lula no segundo turno. Segundo o Ric, citando o serviço Broadcast, do Estadão, economistas ligam a queda a temores fiscais, porque o resultado abre espaço para mais gasto público. A tabela resume os números do dia e do agro.
Os números do dia e do agro Cotações de 26/10/2026, salvo indicação
| Indicador | Valor | Variação no dia |
|---|---|---|
| Dólar, fechamento à vista | R$ 5,40 | +8,21% |
| Ibovespa, fechamento | 176.608 pontos | -13,88% |
| Soja, Chicago (contrato de novembro) | US$ 12,4125 por bushel | -1,21% |
| Soja, Paranaguá (indicador Cepea/Esalq) | R$ 155,55 por saca de 60 kg | +2,06% |
Fontes: BPMoney, Ric e Notícias Agrícolas. Conversão em reais: redação.
Quem vende em dólar recebe mais reais
Exportadores de soja, milho, carne e café recebem em dólar. Quando o dólar sobe, cada venda rende mais reais. Esse é o lado que o câmbio favorece.
Em Chicago, a soja para novembro fechou a US$ 12,4125 por bushel, unidade americana de medida, com queda de 1,21%, segundo o Notícias Agrícolas. Somando essa queda à alta do dólar, o preço em reais sobe cerca de 6,9%. É um cálculo nosso, sem prêmio (a diferença paga no porto sobre a cotação de Chicago) nem frete.
No porto de Paranaguá (PR), o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), subiu 2,06%. Chegou a R$ 155,55 por saca. Essa alta foi bem menor que a conta de Chicago, e os dados consultados não explicam a diferença.
Não encontramos cotação verificada do café para o dia, por isso ele não entra nos números.
O agro pesa muito nas vendas externas. Em 2025, o agronegócio exportou US$ 169,2 bilhões, 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Pelo Cepea, o setor respondeu por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. O PIB é a soma de tudo o que o país produz.
Quem compra insumo em dólar paga mais
Fertilizantes são adubos. Segundo o Mapa, citado pelo Agrolink, cerca de 85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados. Por isso, a alta do dólar tende a encarecer esse insumo.
Em agosto, o preço médio dos fertilizantes importados subiu 12,8% em relação a agosto de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), citados pelo Agrolink. De janeiro a abril, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), o volume importado de adubos com nitrogênio e fósforo caiu 4%. O gasto, porém, subiu 16%.
A inflação também entra na conta. Em 15 de julho, o Ministério da Fazenda elevou para 5,1% a projeção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, para 2026. O número passou do teto da meta, de 4,5%. Entre os fatores que atenuam a alta, a pasta citou o câmbio apreciado, ou seja, o real mais forte.
O que diz o Ministério da Fazenda: Em projeção de 15/7/2026, reportada pelo DGABC, a pasta citou o câmbio apreciado entre os fatores que contribuem para atenuar a inflação. Não enviamos perguntas ao ministério para esta reportagem; a posição vem da reportagem publicada.
Agricultura familiar e a outra ponta da conta
O Censo Agropecuário de 2017, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, contou 77% dos estabelecimentos agropecuários como agricultura familiar. Essas propriedades ocupam 23% da área e respondem por 23% do valor da produção. Elas empregam mais de 10 milhões de pessoas, 67% do total ocupado no campo.
Para 2026/27, o governo anunciou R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar, em 30 de junho. Desse total, R$ 85,2 bilhões vão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), principal linha de financiamento do setor. Os juros para financiar a produção de alimentos caíram de 3% para 2% ao ano.
Quem exporta em volume ganha em reais. Quem não exporta, mas compra insumo importado, sente o custo sem o ganho do câmbio. O pregão da B3 mede o humor de quem investe. Não mede a renda de quem planta.
O que fica em aberto
Um dia de câmbio não define safra, preço de insumo nem renda no campo. A balança do agro do Mapa, o PIB do Cepea e os índices de preços do IBGE mostram esses efeitos em outro ritmo. Ativos podem perder valor, e movimentos de pânico podem se aprofundar. Este texto não recomenda nenhuma decisão financeira.
Como fizemos: Usamos o fechamento do dólar (R$ 5,40, alta de 8,21%) e do Ibovespa (176.608 pontos, queda de 13,88%) de 26/10/2026, segundo BPMoney e Ric, e as cotações da soja do Notícias Agrícolas, consultadas em 26/10/2026. A conversão da soja de Chicago em reais é cálculo nosso: queda de 1,21% combinada à alta de 8,21% do dólar, sem prêmio, frete ou custos de porto. Não encontramos fonte verificada de cotação do café para o dia, nem estimativa atual do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) ou da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre o repasse do dólar aos alimentos. Os dados da agricultura familiar são do Censo de 2017 e não mostram a situação de 2026.
Fontes
- BPMoney: dólar dispara 8,21% e fecha a R$ 5,40 após reeleição de Lula, 26/10/2026
- Ric: Ibovespa cai 13,88% e dólar tem maior alta desde 1999 após vitória de Lula, 26/10/2026
- Notícias Agrícolas: cotações da soja, com dados de 26/10/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Cepea: PIB do agronegócio cresce 12% em 2025, 27/04/2026
- Revista Cultivar: agronegócio brasileiro fecha 2025 com recorde em exportações, 09/01/2026
- Agrolink: fertilizantes mais caros elevam custos da safra, 06/10/2026
- DGABC: Fazenda projeta que IPCA de 2026 estoure teto da meta, ficando em 5,1%, 15/07/2026
- Poder360: Lula lança Plano Safra com R$ 97,3 bi para agricultura familiar, 30/06/2026
- Revista Cultivar: agricultura familiar emprega mais de 10 milhões de pessoas, mostra Censo Agropecuário (dados do IBGE), 28/10/2019
- Foto de colheita de soja em Rondonópolis (MT), por Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil, Wikimedia Commons



