ComportamentoRevista Terra de Santa Cruz

Dólar a R$ 5,40 dá mais reais ao exportador e encarece insumo

Com o dólar a R$ 5,40, a soja ficou mais cara em reais, mas cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados.

Colheitadeira amarela trabalha em lavoura de soja em colheita, com outra máquina ao fundo, em Rondonópolis (MT)
Colheita de soja em Rondonópolis (MT), em 28 de março de 2009. Foto de arquivo, sem relação direta com os números do dia.Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Na segunda-feira (26), o dólar fechou a R$ 5,40, com alta de 8,21%, segundo o BPMoney. Foi a maior alta diária desde 1999, de acordo com o portal Ric. No mesmo pregão, o Ibovespa, índice da bolsa de valores de São Paulo (B3), caiu 13,88%, para 176.608 pontos.

A reação veio depois da reeleição de Lula no segundo turno. Segundo o Ric, citando o serviço Broadcast, do Estadão, economistas ligam a queda a temores fiscais, porque o resultado abre espaço para mais gasto público. A tabela resume os números do dia e do agro.

Os números do dia e do agro Cotações de 26/10/2026, salvo indicação

Indicador Valor Variação no dia
Dólar, fechamento à vista R$ 5,40 +8,21%
Ibovespa, fechamento 176.608 pontos -13,88%
Soja, Chicago (contrato de novembro) US$ 12,4125 por bushel -1,21%
Soja, Paranaguá (indicador Cepea/Esalq) R$ 155,55 por saca de 60 kg +2,06%

Fontes: BPMoney, Ric e Notícias Agrícolas. Conversão em reais: redação.

Quem vende em dólar recebe mais reais

Exportadores de soja, milho, carne e café recebem em dólar. Quando o dólar sobe, cada venda rende mais reais. Esse é o lado que o câmbio favorece.

Em Chicago, a soja para novembro fechou a US$ 12,4125 por bushel, unidade americana de medida, com queda de 1,21%, segundo o Notícias Agrícolas. Somando essa queda à alta do dólar, o preço em reais sobe cerca de 6,9%. É um cálculo nosso, sem prêmio (a diferença paga no porto sobre a cotação de Chicago) nem frete.

No porto de Paranaguá (PR), o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), subiu 2,06%. Chegou a R$ 155,55 por saca. Essa alta foi bem menor que a conta de Chicago, e os dados consultados não explicam a diferença.

Não encontramos cotação verificada do café para o dia, por isso ele não entra nos números.

O agro pesa muito nas vendas externas. Em 2025, o agronegócio exportou US$ 169,2 bilhões, 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Pelo Cepea, o setor respondeu por 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. O PIB é a soma de tudo o que o país produz.

Quem compra insumo em dólar paga mais

Fertilizantes são adubos. Segundo o Mapa, citado pelo Agrolink, cerca de 85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados. Por isso, a alta do dólar tende a encarecer esse insumo.

Em agosto, o preço médio dos fertilizantes importados subiu 12,8% em relação a agosto de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), citados pelo Agrolink. De janeiro a abril, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), o volume importado de adubos com nitrogênio e fósforo caiu 4%. O gasto, porém, subiu 16%.

A inflação também entra na conta. Em 15 de julho, o Ministério da Fazenda elevou para 5,1% a projeção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, para 2026. O número passou do teto da meta, de 4,5%. Entre os fatores que atenuam a alta, a pasta citou o câmbio apreciado, ou seja, o real mais forte.

O que diz o Ministério da Fazenda: Em projeção de 15/7/2026, reportada pelo DGABC, a pasta citou o câmbio apreciado entre os fatores que contribuem para atenuar a inflação. Não enviamos perguntas ao ministério para esta reportagem; a posição vem da reportagem publicada.

Agricultura familiar e a outra ponta da conta

O Censo Agropecuário de 2017, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, contou 77% dos estabelecimentos agropecuários como agricultura familiar. Essas propriedades ocupam 23% da área e respondem por 23% do valor da produção. Elas empregam mais de 10 milhões de pessoas, 67% do total ocupado no campo.

Para 2026/27, o governo anunciou R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar, em 30 de junho. Desse total, R$ 85,2 bilhões vão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), principal linha de financiamento do setor. Os juros para financiar a produção de alimentos caíram de 3% para 2% ao ano.

Quem exporta em volume ganha em reais. Quem não exporta, mas compra insumo importado, sente o custo sem o ganho do câmbio. O pregão da B3 mede o humor de quem investe. Não mede a renda de quem planta.

O que fica em aberto

Um dia de câmbio não define safra, preço de insumo nem renda no campo. A balança do agro do Mapa, o PIB do Cepea e os índices de preços do IBGE mostram esses efeitos em outro ritmo. Ativos podem perder valor, e movimentos de pânico podem se aprofundar. Este texto não recomenda nenhuma decisão financeira.

Como fizemos: Usamos o fechamento do dólar (R$ 5,40, alta de 8,21%) e do Ibovespa (176.608 pontos, queda de 13,88%) de 26/10/2026, segundo BPMoney e Ric, e as cotações da soja do Notícias Agrícolas, consultadas em 26/10/2026. A conversão da soja de Chicago em reais é cálculo nosso: queda de 1,21% combinada à alta de 8,21% do dólar, sem prêmio, frete ou custos de porto. Não encontramos fonte verificada de cotação do café para o dia, nem estimativa atual do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) ou da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre o repasse do dólar aos alimentos. Os dados da agricultura familiar são do Censo de 2017 e não mostram a situação de 2026.

Fontes