ComportamentoRevista Terra de Santa Cruz

Bolsa cai 13,88% e analistas citam resultado e contas públicas

Ibovespa caiu 13,88% em 26/10, e o dólar subiu 8,21%. Os dados não separam o efeito da eleição do efeito da recusa de Flávio em aceitar a derrota.

Fachada do Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, com as cúpulas e as duas torres do prédio
Fachada do Congresso Nacional, em Brasília, sede da Câmara e do Senado.Foto: Leonardo Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na segunda-feira (26), o principal índice da Bolsa de São Paulo, o Ibovespa, caiu 13,88% e fechou aos 176.608,23 pontos. Foi a maior queda percentual diária desde março de 2020, segundo a CNN Brasil. O dólar comercial subiu 8,21%, segundo a InfoMoney.

A queda veio no primeiro pregão depois da eleição de domingo (25). Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). Na noite de domingo, o senador disse que não reconhecia o resultado. Os dados disponíveis não permitem separar o peso da eleição do peso dessa recusa.

Flávio criticou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou o horário de votação em alguns locais. Ele disse: “vamos pedir anulação dessas eleições”. Na segunda, a CNN Brasil informou, com fontes anônimas da campanha, que o pedido de anulação não será feito. Em vídeo, Flávio afirmou que vai pedir a cassação da chapa de Lula, ou seja, a perda do mandato.

O mercado reagiu, e analistas apontam o resultado e as contas

A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende a negociação em quedas fortes. Foi a primeira vez desde 2020, segundo a CNN. O contrato de juros futuros para janeiro de 2028 subiu 194 pontos-base, para 14,8% ao ano. Um ponto-base equivale a um centésimo de ponto percentual.

Analistas citados pela InfoMoney apontam duas causas. Thomas Haugaard, da Janus Henderson, disse que “a aposta na eleição já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava”. Ou seja, os preços refletiam outra expectativa. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, afirmou que o problema central é “a incerteza sobre a condução das contas públicas”.

Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, disse que o mercado reavaliava dois riscos: o fiscal e o institucional. Para ele, o institucional se liga às controvérsias sobre o processo eleitoral. Mesmo assim, a maior parte das explicações citadas aponta o resultado e as contas, não a disputa.

O que já foi medido sobre confiança e instituições

A pesquisa mais recente sobre confiança nas urnas que encontramos é da Genial/Quaest, divulgada em 15 de fevereiro de 2026. Foram 2.004 entrevistas entre 5 e 9 de fevereiro, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Para 53%, as urnas são confiáveis. Para 43%, não são.

A divisão aparece por voto. Entre os eleitores de Lula no segundo turno de 2022, 75% concordam que as urnas são confiáveis. Entre os de Bolsonaro, são 26%. A pesquisa tem número de registro no TSE, BR-00249/2026, mas não informa quem a contratou.

Em maio de 2022, o Datafolha registrou 73% de confiança nas urnas, 9 pontos percentuais abaixo de março. A pesquisa ouviu 2.556 pessoas em 25 e 26 de maio, com margem de erro de 2 pontos. Não localizamos número de registro nem nível de confiança dessa divulgação. Também não encontramos pesquisa feita depois da eleição de 25 de outubro.

Nas instituições, a manifestação mais direta veio do TSE. Segundo o Metrópoles, o tribunal afirmou que “a sala-cofre do TSE não é um espaço aberto à visitação”, ao negar que fiscais do PL tenham sido retirados do local. A InfoMoney relatou que fontes do TSE e do STF consideram remota a chance de sucesso de um pedido de anulação.

Não encontramos relatos de bloqueios de estradas por manifestantes em 25 e 26 de outubro. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 27 interdições em rodovias federais no domingo: oito totais e 19 parciais. Segundo a corporação, as causas foram sobretudo chuva e acidentes. Também não encontramos relato de medidas extraordinárias de segurança.

O precedente medido é o 8 de janeiro de 2023, quando os três Poderes foram atacados em Brasília. Não existe total oficial consolidado. Cada órgão estimou o próprio prejuízo em relatórios enviados à comissão do Congresso que investigou os ataques.

Prejuízo estimado nos Três Poderes após 8 de janeiro de 2023 Estimativas por órgão, em R$ milhões, valores de 2023 sem correção

Órgão Prejuízo estimado Origem do número
STF 11,4 Relatório enviado à comissão do Congresso no fim de junho de 2023
Palácio do Planalto 4,3 Relatório enviado em 27/6/2023, com obras de arte e presentes diplomáticos
Câmara dos Deputados 2,7 Número citado pela CNN Brasil

Fontes: O Povo (5/7/2023), SBT News (28/6/2023) e CNN Brasil (6/1/2024). Elaboração: redação.

A CNN Brasil somou mais de R$ 16 milhões para os três Poderes, em levantamento de janeiro de 2024. A própria reportagem diz que o valor é um mínimo, porque algumas instituições não conseguem medir o custo das restaurações.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na noite de domingo (25), ele disse: “É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram.” Em vídeo na segunda (26), afirmou que vai pedir a cassação da chapa de Lula, segundo a CNN Brasil. Não enviamos perguntas à campanha; as falas vêm de declarações publicadas.

O que isso significa

Com os dados disponíveis, a queda da Bolsa mistura causas: o resultado eleitoral e a dúvida sobre as contas públicas, segundo os analistas citados. A disputa sobre o processo eleitoral aparece como risco, mas não como explicação única. A confiança nas urnas não foi medida depois da eleição.

Ficam em aberto dois pontos. O primeiro é se o questionamento vira ação judicial, como o pedido de cassação anunciado por Flávio. O segundo é se a confiança nas urnas muda nas próximas pesquisas. Ativos podem perder valor, e quedas como essa podem se aprofundar. Esta reportagem não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos o fechamento do Ibovespa e do dólar de 26/10/2026, segundo CNN Brasil e InfoMoney, acessados em 26/10/2026. A CNN registrou alta de 8,36% do dólar, e a InfoMoney, de 8,21%; usamos o segundo número. As pesquisas são a Genial/Quaest de 15/2/2026 e o Datafolha divulgado em 27/5/2022, e os valores de 8 de janeiro vêm de relatórios de 2023 citados pela imprensa e de levantamento da CNN de 2024, sem total oficial. Não é possível separar, com esses dados, o efeito da eleição do efeito da recusa de Flávio, porque ambos ocorreram antes da abertura do pregão.

Fontes