ComentárioEnsaio de opinião

Recusar o resultado sem prova não é defender a pátria

Flávio Bolsonaro diz que não reconhece a vitória de Lula. A soberania está no voto, e a apuração tem trilha pública para conferir.

Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Longas tiras de boletins de urna impressos, penduradas na parede sob placas de zonas eleitorais, em Feira de Santana (BA).
Boletins de urna em Feira de Santana (BA), fotografados em 27 de outubro de 2022.Foto: Albertoleoncio / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Opinião: este texto expressa a posição da redação.

No domingo, 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. Foram 64.256.232 votos para ele e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL), uma diferença de 4.430.191 votos. Mesmo assim, Flávio disse que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição.

Nossa posição é direta. Recusar um resultado apurado, sem prova, não é defender a pátria. Quem faz isso enfraquece justamente aquilo que diz proteger, que é a decisão do povo tomada no voto.

A soberania está na urna

A Constituição diz onde mora o poder. O parágrafo único do artigo 1º afirma: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Quando milhões de pessoas escolhem um presidente, é esse poder que se exerce.

Soberania, nesse sentido, não é a vontade de quem perdeu. É a soma de decisões individuais, tomadas em cabines de votação em todo o país. Negar essa soma em nome da pátria inverte o sentido da palavra.

Flávio tem queixas, e elas aparecem no seu discurso. Ele criticou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, que prorrogou a votação até as 19h. “Ele mudou a regra do jogo no meio do jogo”, disse, segundo o Poder360. Ele também afirmou que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre, espaço fechado onde ficam os dados da apuração.

Há respostas para essas queixas. O Poder360 informa que PT e PL protocolaram pedidos de extensão do horário, o que torna difícil ver a medida como golpe de um lado só. Sobre os fiscais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou no canal Fato ou Boato, em 26 de outubro, que a afirmação “é falsa”. A nota cita filmagens da sala de totalização e a presença de fiscais do PL no teste de integridade das urnas.

Ter queixas é legítimo. Ir à Justiça também é, e um pedido de anulação no TSE é um caminho previsto em lei. O que não se sustenta é recusar o resultado antes de qualquer prova.

Quando a queixa foi à Justiça

Este debate não é novo. Em 2022, o PL pediu ao TSE que fossem invalidados os votos do segundo turno registrados em 279 mil urnas, segundo o Poder360. Em novembro daquele ano, o presidente da Corte, ministro Alexandre de Moraes, rejeitou o pedido e aplicou multa. Ele falou em “a total ausência de quaisquer indícios de irregularidades”.

Em 15 de dezembro de 2022, o plenário do TSE confirmou a multa de R$ 22,9 milhões ao partido, por litigância de má-fé, segundo a Agência Brasil. Litigância de má-fé é usar a Justiça de forma desleal, com pedido sem base. A lição do caso é clara: a porta da Justiça existe, mas bater sem prova custa caro.

A trilha pública também existe. Segundo reportagem do Senado Verifica, o processo de votação passa por mais de 40 procedimentos de auditoria antes, durante e depois da eleição. Ao fim da votação, cada urna emite um Boletim de Urna (BU), com o resultado daquela seção, que pode ser comparado com a totalização, a soma final de todas as seções. Em 30 anos, diz o texto, a Justiça Eleitoral nunca registrou uma fraude comprovada no sistema.

Para quem lê a Bíblia, o mandamento é direto: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20:16, na versão Almeida Corrigida Fiel). Os mesários, os técnicos e os servidores da Justiça Eleitoral são vizinhos de alguém. Acusá-los de fraude sem prova é falar contra eles, qualquer que seja o partido de quem fala.

Quem paga essa conta, no fim, não são os líderes políticos. É o comerciante de cidade pequena, o trabalhador que depende de crédito e o estudante do interior que precisa de um país previsível para planejar o ano. Na nossa avaliação, a incerteza pesa mais sobre quem tem menos reserva para esperar.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na noite de 25 de outubro, afirmou: “É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram” e “vamos pedir a anulação dessas eleições”. A declaração foi publicada pela Gazeta do Povo; não houve contato com a campanha para este texto de opinião.

Uma democracia madura aceita o resultado e cobra prova quando há dúvida. Essa é a cobrança que o eleitor pode fazer. Até a Justiça Eleitoral julgar qualquer pedido, o resultado por ela divulgado é o que existe.

Patriotismo, nesta eleição, é conferir, cobrar e respeitar o veredito. Quem recusa o voto dos outros, sem prova, pede ao país que confie só em si mesmo. Isso não é defender a pátria.

Como fizemos: Usamos as reportagens da Gazeta do Povo e do Poder360 sobre a fala de Flávio Bolsonaro, publicadas em 25/10/2026; a nota do TSE no Fato ou Boato, de 26/10/2026, reproduzida pela Gazeta do Povo; o balanço da apuração na Revista Oeste, de 26/10/2026; a cobertura do Poder360 e da Agência Brasil sobre a decisão de 2022; e a reportagem do Senado Verifica, de 19/08/2026. Acessamos as fontes em 26/10/2026. Cálculo próprio: 64.256.232 menos 59.826.041 dá 4.430.191 votos de diferença. Não encontramos, até este texto, a petição de anulação protocolada no TSE, e a versão integral da nota do TSE não foi lida em sua totalidade.

Atualização, 26/10, 18h32: a CNN Brasil informou, com fontes anônimas da campanha, que Flávio não pedirá a anulação da votação, e sim a cassação da chapa de Lula. Em vídeo, ele disse que pedirá a cassação por supostos abusos. A posição deste texto vale para os dois pedidos: recusar o resultado das urnas sem prova não é defender a pátria (CNN Brasil).

Fontes