Recusar o resultado sem prova não é defender a pátria
Flávio Bolsonaro diz que não reconhece a vitória de Lula. A soberania está no voto, e a apuração tem trilha pública para conferir.
Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Opinião: este texto expressa a posição da redação.
No domingo, 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. Foram 64.256.232 votos para ele e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL), uma diferença de 4.430.191 votos. Mesmo assim, Flávio disse que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição.
Nossa posição é direta. Recusar um resultado apurado, sem prova, não é defender a pátria. Quem faz isso enfraquece justamente aquilo que diz proteger, que é a decisão do povo tomada no voto.
A soberania está na urna
A Constituição diz onde mora o poder. O parágrafo único do artigo 1º afirma: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Quando milhões de pessoas escolhem um presidente, é esse poder que se exerce.
Soberania, nesse sentido, não é a vontade de quem perdeu. É a soma de decisões individuais, tomadas em cabines de votação em todo o país. Negar essa soma em nome da pátria inverte o sentido da palavra.
Flávio tem queixas, e elas aparecem no seu discurso. Ele criticou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, que prorrogou a votação até as 19h. “Ele mudou a regra do jogo no meio do jogo”, disse, segundo o Poder360. Ele também afirmou que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre, espaço fechado onde ficam os dados da apuração.
Há respostas para essas queixas. O Poder360 informa que PT e PL protocolaram pedidos de extensão do horário, o que torna difícil ver a medida como golpe de um lado só. Sobre os fiscais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou no canal Fato ou Boato, em 26 de outubro, que a afirmação “é falsa”. A nota cita filmagens da sala de totalização e a presença de fiscais do PL no teste de integridade das urnas.
Ter queixas é legítimo. Ir à Justiça também é, e um pedido de anulação no TSE é um caminho previsto em lei. O que não se sustenta é recusar o resultado antes de qualquer prova.
Quando a queixa foi à Justiça
Este debate não é novo. Em 2022, o PL pediu ao TSE que fossem invalidados os votos do segundo turno registrados em 279 mil urnas, segundo o Poder360. Em novembro daquele ano, o presidente da Corte, ministro Alexandre de Moraes, rejeitou o pedido e aplicou multa. Ele falou em “a total ausência de quaisquer indícios de irregularidades”.
Em 15 de dezembro de 2022, o plenário do TSE confirmou a multa de R$ 22,9 milhões ao partido, por litigância de má-fé, segundo a Agência Brasil. Litigância de má-fé é usar a Justiça de forma desleal, com pedido sem base. A lição do caso é clara: a porta da Justiça existe, mas bater sem prova custa caro.
A trilha pública também existe. Segundo reportagem do Senado Verifica, o processo de votação passa por mais de 40 procedimentos de auditoria antes, durante e depois da eleição. Ao fim da votação, cada urna emite um Boletim de Urna (BU), com o resultado daquela seção, que pode ser comparado com a totalização, a soma final de todas as seções. Em 30 anos, diz o texto, a Justiça Eleitoral nunca registrou uma fraude comprovada no sistema.
Para quem lê a Bíblia, o mandamento é direto: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20:16, na versão Almeida Corrigida Fiel). Os mesários, os técnicos e os servidores da Justiça Eleitoral são vizinhos de alguém. Acusá-los de fraude sem prova é falar contra eles, qualquer que seja o partido de quem fala.
Quem paga essa conta, no fim, não são os líderes políticos. É o comerciante de cidade pequena, o trabalhador que depende de crédito e o estudante do interior que precisa de um país previsível para planejar o ano. Na nossa avaliação, a incerteza pesa mais sobre quem tem menos reserva para esperar.
O que diz Flávio Bolsonaro: Na noite de 25 de outubro, afirmou: “É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram” e “vamos pedir a anulação dessas eleições”. A declaração foi publicada pela Gazeta do Povo; não houve contato com a campanha para este texto de opinião.
Uma democracia madura aceita o resultado e cobra prova quando há dúvida. Essa é a cobrança que o eleitor pode fazer. Até a Justiça Eleitoral julgar qualquer pedido, o resultado por ela divulgado é o que existe.
Patriotismo, nesta eleição, é conferir, cobrar e respeitar o veredito. Quem recusa o voto dos outros, sem prova, pede ao país que confie só em si mesmo. Isso não é defender a pátria.
Como fizemos: Usamos as reportagens da Gazeta do Povo e do Poder360 sobre a fala de Flávio Bolsonaro, publicadas em 25/10/2026; a nota do TSE no Fato ou Boato, de 26/10/2026, reproduzida pela Gazeta do Povo; o balanço da apuração na Revista Oeste, de 26/10/2026; a cobertura do Poder360 e da Agência Brasil sobre a decisão de 2022; e a reportagem do Senado Verifica, de 19/08/2026. Acessamos as fontes em 26/10/2026. Cálculo próprio: 64.256.232 menos 59.826.041 dá 4.430.191 votos de diferença. Não encontramos, até este texto, a petição de anulação protocolada no TSE, e a versão integral da nota do TSE não foi lida em sua totalidade.
Atualização, 26/10, 18h32: a CNN Brasil informou, com fontes anônimas da campanha, que Flávio não pedirá a anulação da votação, e sim a cassação da chapa de Lula. Em vídeo, ele disse que pedirá a cassação por supostos abusos. A posição deste texto vale para os dois pedidos: recusar o resultado das urnas sem prova não é defender a pátria (CNN Brasil).
Fontes
- Flávio Bolsonaro diz que não reconhece resultado e vai pedir anulação da eleição — Gazeta do Povo, 25/10/2026
- Flávio não aceita derrota e diz que pedirá a anulação do resultado — Poder360, 25/10/2026
- TSE responde Flávio e diz que fiscais não foram retirados da sala-cofre — Gazeta do Povo, 26/10/2026
- Confira os números do 2º turno, com 100% da apuração concluída — Revista Oeste, 26/10/2026
- Moraes rejeita ação do PL contra urnas e aplica multa de R$ 22,9 mi — Poder360, 2022
- Plenário do TSE confirma multa de R$ 22,9 milhões ao PL — Agência Brasil, 15/12/2022
- A urna eletrônica é segura? Entenda como funciona e por que ela é confiável — Senado Verifica, 19/08/2026
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto
- Bíblia Online, Êxodo 20 (ACF) (acesso em 26/10/2026)



