A bolsa não é placar de legitimidade: quem legitima é o voto
Ibovespa caiu 13,88% após a reeleição de Lula, mas a queda mede apostas sobre juros e contas, não a vontade de 124 milhões de votos válidos.
Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Opinião: este texto expressa a posição da redação.
Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O dólar à vista subiu 8,21%, para R$ 5,4029. A B3, a bolsa de valores brasileira, acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende os negócios por 30 minutos. Foi a primeira vez desde março de 2020.
A queda pode ser lida como um veredito sobre a eleição. Ela não é isso. A bolsa não mede legitimidade política, e o mercado não tem voto.
No domingo, 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou a reeleição de Lula. Ele teve 64.256.232 votos válidos, ou 51,79%. Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), teve 59.826.041, ou 48,21%. Somados, os votos válidos chegam a 124.082.273.
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro tinha ficado à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No pregão seguinte, em 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70%, aos 206.911,89 pontos.
O índice mede apostas, não o desejo de quem votou
O Ibovespa é o principal índice da B3. Ele acompanha as ações das empresas mais negociadas no país. Quando sobe ou cai, o mercado está apostando no futuro, e não contando votos.
Analistas ouvidos pelo InfoMoney apontaram o motivo da queda de 26 de outubro. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, citou a incerteza sobre a condução das contas públicas. Fábio Murad, da Wiser Asset, disse que parte dos investidores tinha comprado ações e vendido dólares apostando em outro resultado.
No pregão de 5 de outubro, a analista Jaqueline Neo, da be.smart, disse que o mercado “está precificando a possibilidade de uma política econômica mais favorável, mas isso ainda precisa ser confirmado”. O índice subiu com essa expectativa. Caiu quando ela foi desfeita. Nenhum desses movimentos mede o bem-estar de quem trabalha ou vive no interior.
Dois pregões, duas direções Variação no fechamento do Ibovespa e do dólar, em 2026
| Data | Ibovespa | Dólar |
|---|---|---|
| 5 de outubro, após o 1º turno | +7,70%, a 206.911,89 pts | -4,12%, a cerca de R$ 5,00 |
| 26 de outubro, após o 2º turno | -13,88%, a 176.608,23 pts | +8,21%, a R$ 5,4029 |
Fonte: Bora Investir (B3), InfoMoney e Times Brasil. Elaboração: redação.
A base de investidores mostra quem está nessa conta. Segundo a B3, o número de pessoas físicas com CPF (cadastro de pessoa física) na renda variável chegou a 5,7 milhões no fim do segundo trimestre de 2026. Em dezembro de 2025, eram 5,5 milhões. São cerca de 2,8% dos 203,1 milhões de habitantes do Censo 2022, conta nossa explicada no quadro de método. Os votos válidos do segundo turno passaram de 124 milhões.
Legitimidade vem do voto, e o governo tem contas a prestar
Sejamos honestos: o mercado afeta a vida de todos. Juros e dólar mudam o custo de financiamentos e da dívida pública. Quando o dólar sobe, o preço dos combustíveis pode subir junto. Segundo a Petrobras, sua política de preços busca evitar que a volatilidade das cotações internacionais e do câmbio chegue aos preços internos.
Nos alimentos, o câmbio também pesa. Em dezembro de 2024, o economista João Fernandes, da Quantitas, estimou em 14% o repasse do câmbio aos preços de alimentos. Era uma estimativa para aquele momento, não uma medida de hoje.
Por isso, a cobrança sobre o governo é legítima. Um presidente reeleito precisa mostrar como vai fechar as contas, com meta, receita e dívida sob controle. O mercado tem direito de perguntar.
A resposta, porém, é uma política crível. Não é pedir que os eleitores mudem o resultado. Governo se mede pelo que faz com o orçamento e pelo que entrega à população, e não pelo placar de um pregão.
O que diz a B3: Em comunicado sobre a base de investidores, a empresa informa que a renda variável chegou a 5,7 milhões de CPFs no segundo trimestre de 2026. A B3 não foi procurada para este texto de opinião.
Também é preciso dizer o que pode dar errado. Quem tem ações, fundos ou dólar pode perder dinheiro, e quedas fortes podem se aprofundar antes de se estabilizar. Este texto não é recomendação de investimento.
A queda de 13,88% mostra apostas desfeitas em um dia. Não mostra a vontade da maioria. Quem decide quem governa são os votos, mais de 124 milhões deles válidos. O mercado pode cobrar contas, mas não tem o direito de desfazer uma eleição.
Como fizemos: Usamos o resultado do segundo turno e do primeiro, pelo TSE, reproduzidos pelo ABC+ e pelo O Tempo; os fechamentos do Ibovespa e do dólar de InfoMoney, Times Brasil e Bora Investir (B3); e o comunicado da B3 sobre a base de investidores. Acessamos as fontes em 26/10/2026. Calculamos 5,7 milhões de CPFs divididos pela população de 203,1 milhões do Censo 2022, o que dá cerca de 2,8%. A base da B3 inclui cadastros na renda variável, não só quem investe com frequência. A B3 pode revisar esses números.
Fontes
- Ibovespa hoje: bolsa de valores ao vivo, 26/10/2026 — InfoMoney
- Com reeleição de Lula, Ibovespa cai quase 14%, dólar chega a R$ 5,40 — Times Brasil, 26/10/2026
- Ibovespa B3 fecha acima dos 206 mil pontos no maior patamar da história — Bora Investir (B3), 05/10/2026
- ETFs ganham 223 mil investidores em um ano e alcançam 862 mil CPFs na B3 — B3 (acesso em 26/10/2026)
- Como ficou o resultado final do 2º turno da eleição presidencial de 2026 — ABC+
- Mapa da apuração das eleições 2026 — O Tempo
- Petrobras anuncia nova política de preços dos combustíveis — Bora Investir (B3), 16/05/2023
- Repasse do dólar aos preços está maior que o normal e eleva preocupação com inflação — ISTOÉ Dinheiro (Estadão Conteúdo), 22/12/2024
- Sao Paulo Stock Exchange, foto de Rafael Matsunaga — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)


