ComentárioEnsaio de opinião

A bolsa não é placar de legitimidade: quem legitima é o voto

Ibovespa caiu 13,88% após a reeleição de Lula, mas a queda mede apostas sobre juros e contas, não a vontade de 124 milhões de votos válidos.

Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Dois operadores de costas, sentados diante de telas, em frente ao grande painel de cotações da Bolsa de Valores de São Paulo.
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), com painel de cotações ao fundo, em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Opinião: este texto expressa a posição da redação.

Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O dólar à vista subiu 8,21%, para R$ 5,4029. A B3, a bolsa de valores brasileira, acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende os negócios por 30 minutos. Foi a primeira vez desde março de 2020.

A queda pode ser lida como um veredito sobre a eleição. Ela não é isso. A bolsa não mede legitimidade política, e o mercado não tem voto.

No domingo, 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou a reeleição de Lula. Ele teve 64.256.232 votos válidos, ou 51,79%. Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), teve 59.826.041, ou 48,21%. Somados, os votos válidos chegam a 124.082.273.

No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro tinha ficado à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No pregão seguinte, em 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70%, aos 206.911,89 pontos.

O índice mede apostas, não o desejo de quem votou

O Ibovespa é o principal índice da B3. Ele acompanha as ações das empresas mais negociadas no país. Quando sobe ou cai, o mercado está apostando no futuro, e não contando votos.

Analistas ouvidos pelo InfoMoney apontaram o motivo da queda de 26 de outubro. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, citou a incerteza sobre a condução das contas públicas. Fábio Murad, da Wiser Asset, disse que parte dos investidores tinha comprado ações e vendido dólares apostando em outro resultado.

No pregão de 5 de outubro, a analista Jaqueline Neo, da be.smart, disse que o mercado “está precificando a possibilidade de uma política econômica mais favorável, mas isso ainda precisa ser confirmado”. O índice subiu com essa expectativa. Caiu quando ela foi desfeita. Nenhum desses movimentos mede o bem-estar de quem trabalha ou vive no interior.

Dois pregões, duas direções Variação no fechamento do Ibovespa e do dólar, em 2026

Data Ibovespa Dólar
5 de outubro, após o 1º turno +7,70%, a 206.911,89 pts -4,12%, a cerca de R$ 5,00
26 de outubro, após o 2º turno -13,88%, a 176.608,23 pts +8,21%, a R$ 5,4029

Fonte: Bora Investir (B3), InfoMoney e Times Brasil. Elaboração: redação.

A base de investidores mostra quem está nessa conta. Segundo a B3, o número de pessoas físicas com CPF (cadastro de pessoa física) na renda variável chegou a 5,7 milhões no fim do segundo trimestre de 2026. Em dezembro de 2025, eram 5,5 milhões. São cerca de 2,8% dos 203,1 milhões de habitantes do Censo 2022, conta nossa explicada no quadro de método. Os votos válidos do segundo turno passaram de 124 milhões.

Legitimidade vem do voto, e o governo tem contas a prestar

Sejamos honestos: o mercado afeta a vida de todos. Juros e dólar mudam o custo de financiamentos e da dívida pública. Quando o dólar sobe, o preço dos combustíveis pode subir junto. Segundo a Petrobras, sua política de preços busca evitar que a volatilidade das cotações internacionais e do câmbio chegue aos preços internos.

Nos alimentos, o câmbio também pesa. Em dezembro de 2024, o economista João Fernandes, da Quantitas, estimou em 14% o repasse do câmbio aos preços de alimentos. Era uma estimativa para aquele momento, não uma medida de hoje.

Por isso, a cobrança sobre o governo é legítima. Um presidente reeleito precisa mostrar como vai fechar as contas, com meta, receita e dívida sob controle. O mercado tem direito de perguntar.

A resposta, porém, é uma política crível. Não é pedir que os eleitores mudem o resultado. Governo se mede pelo que faz com o orçamento e pelo que entrega à população, e não pelo placar de um pregão.

O que diz a B3: Em comunicado sobre a base de investidores, a empresa informa que a renda variável chegou a 5,7 milhões de CPFs no segundo trimestre de 2026. A B3 não foi procurada para este texto de opinião.

Também é preciso dizer o que pode dar errado. Quem tem ações, fundos ou dólar pode perder dinheiro, e quedas fortes podem se aprofundar antes de se estabilizar. Este texto não é recomendação de investimento.

A queda de 13,88% mostra apostas desfeitas em um dia. Não mostra a vontade da maioria. Quem decide quem governa são os votos, mais de 124 milhões deles válidos. O mercado pode cobrar contas, mas não tem o direito de desfazer uma eleição.

Como fizemos: Usamos o resultado do segundo turno e do primeiro, pelo TSE, reproduzidos pelo ABC+ e pelo O Tempo; os fechamentos do Ibovespa e do dólar de InfoMoney, Times Brasil e Bora Investir (B3); e o comunicado da B3 sobre a base de investidores. Acessamos as fontes em 26/10/2026. Calculamos 5,7 milhões de CPFs divididos pela população de 203,1 milhões do Censo 2022, o que dá cerca de 2,8%. A base da B3 inclui cadastros na renda variável, não só quem investe com frequência. A B3 pode revisar esses números.

Fontes