Ibovespa levou 18 anos para voltar ao pico real de 2008
Pânicos podem se aprofundar: o Ibovespa caiu cerca de 60% entre maio e outubro de 2008 e só superou o pico real em abril de 2026.

Em 20 de maio de 2008, o Ibovespa, principal índice da B3, a bolsa de valores de São Paulo, fechou em 73.517 pontos. Foi o recorde histórico da época. Em 27 de outubro, o índice bateu 29.435 pontos, segundo o InfoMoney. A queda foi de cerca de 60% em pouco mais de cinco meses.
Quem comprou no meio dessa queda também viu o índice cair mais. Este texto reúne o outro lado da conversa sobre pânicos. A queda pode continuar, e a volta ao topo pode levar anos. Não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo. Ações e outros investimentos podem perder valor.
Quedas que continuam depois do primeiro susto
Em 2008, o índice já havia caído para 45.909 pontos após a quebra do banco americano Lehman Brothers, em 17 de setembro. Até 27 de outubro, perdeu mais de um terço desse nível. O primeiro choque não foi o fundo.
Em 2015, o Ibovespa fechou o ano em 43.349 pontos, queda de 13,3%. Foi o terceiro ano seguido de baixa e o menor fechamento desde 1º de abril de 2009, segundo o InfoMoney. No mesmo ano, o dólar subiu 48,5%.
Março de 2020 mostra outro caso. No dia 18, o índice chegou a cair 14,83% durante o pregão, até 63.547 pontos. Fechou em queda de 10,35%, aos 66.894 pontos, segundo reportagem reproduzida pelo vLex. A queda de março não impediu um ganho no ano: o Ibovespa terminou 2020 aos 119.017 pontos, com alta de 2,92%, segundo o Poder360.
Anos para voltar ao topo, e o risco de cada ação
Descontada a inflação, o Ibovespa só superou o pico de 20 de maio de 2008 em abril de 2026. Em 15 de abril, bateu 199.232 pontos, segundo o Poder360. A reportagem resume o caso no título: “depois de 18 anos”.
No Japão, o Nikkei fechou em 38.915,87 pontos em 29 de dezembro de 1989. O recorde só foi superado em 22 de fevereiro de 2024, quando o índice fechou em 39.098,68 pontos, segundo a agência AP. Foram cerca de 34 anos.
Nos Estados Unidos, o Dow Jones fechou em 381,17 pontos em 3 de setembro de 1929. Caiu até 41,22 em 8 de julho de 1932, cerca de 89% abaixo. Só voltou ao nível de 1929 em 23 de novembro de 1954, segundo o Federal Reserve History. Essa fonte trata do Dow, não do S&P 500. Os números desses três casos são de preço, sem dividendos.
Ninguém acerta o fundo de forma confiável. Não encontramos estudo que meça se investidores conseguem identificar o pior momento de uma queda. Os dados disponíveis mostram o custo de errar a janela. Um estudo de Hendrik Bessembinder, da Universidade Estadual do Arizona (ASU), mostra a concentração dos ganhos: desde 1926, 86 ações responderam por metade da riqueza criada pelo mercado americano. As demais 96% das ações, em conjunto, tiveram retorno parecido com o de títulos do Tesouro de um mês.
O que diz a J.P. Morgan Asset Management: Segundo comunicado da gestora sobre seu Guia de Aposentadoria 2025, deixar de fora os 10 melhores dias do mercado nos últimos 20 anos reduziria a rentabilidade anualizada de uma carteira em quase 50%. Não localizamos o guia completo; a informação vem do comunicado.
O risco de uma empresa específica é outro. Em 12 de janeiro de 2023, as ações da Americanas caíram 77,33% e fecharam a R$ 2,72. No dia anterior, a empresa havia comunicado inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões, segundo o Trademap. Esse risco é da empresa, e não do índice.
A proteção também é diferente. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) cobre depósitos, poupança, CDB (certificado de depósito bancário), LCI e LCA (letras de crédito imobiliário e do agronegócio). A cobertura vale até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado. Ações não estão na lista de produtos cobertos, e cotas de fundos também não aparecem entre eles, segundo o site do FGC. A garantia responde à quebra de uma instituição associada. Não cobre a perda de preço de uma ação.
O que isso significa
O histórico não diz quando um pânico termina. Mostra que a queda pode continuar depois do primeiro choque, e que a volta ao topo pode levar anos. Em 2008, a volta ao pico real veio 18 anos depois. No Japão, a espera foi de cerca de 34 anos.
Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Quem decide o que fazer com o próprio dinheiro precisa avaliar o prazo, o risco e a proteção de cada produto.
Como fizemos: Usamos os pontos e variações do Ibovespa citados pelo InfoMoney (2008 e 2015), pelo vLex (2020) e pelo Poder360 (2020 e 2026). Os dados do Nikkei vêm da AP, e os do Dow, do Federal Reserve History. Acessamos as fontes em 26/10/2026. Cálculos próprios: a queda de 2008 é de 1 − 29.435 ÷ 73.517, cerca de 60%; de 45.909 até 29.435 pontos, cerca de 36%. Os números são de pontos e de preço, sem dividendos. Não localizamos a série diária da B3 nem a data em que o Ibovespa voltou ao recorde nominal de 2008, e por isso não a incluímos. Também não localizamos fonte verificada para o S&P 500 de 1929.
Fontes
- Bolsa de Valores supera recorde real depois de 18 anos — Poder360
- Ibovespa: recorde de 20 de maio de 2008 e fechamento de 27 de outubro de 2008 — InfoMoney
- Ibovespa encerra 2015 em queda de 13,3% e tem 3º ano seguido de baixa — InfoMoney
- Ibovespa fecha em queda de 10,35%, aos 66.894 pontos — vLex
- Ibovespa termina o ano aos 119.017 pontos, com alta de 2,92% em 2020 — Poder360
- Stock Market Crash of 1929 — Federal Reserve History
- Japan’s Nikkei stock index breaks its 1989 record, surges to all-time high — AP, 22/2/2024
- J.P. Morgan Asset Management releases 2025 Guide to Retirement — comunicado
- Do stocks outperform Treasury bills? — Arizona State University, W. P. Carey
- Americanas (AMER3) despenca 77% e vai de maior alta à principal queda de 2023 — Trademap
- Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — coberturas e limites



