ComportamentoRevista Terra de Santa Cruz

Ibovespa levou 18 anos para voltar ao pico real de 2008

Pânicos podem se aprofundar: o Ibovespa caiu cerca de 60% entre maio e outubro de 2008 e só superou o pico real em abril de 2026.

Dois operadores sentados de costas diante de painéis eletrônicos de cotações no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo
Operadores no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de arquivo de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 20 de maio de 2008, o Ibovespa, principal índice da B3, a bolsa de valores de São Paulo, fechou em 73.517 pontos. Foi o recorde histórico da época. Em 27 de outubro, o índice bateu 29.435 pontos, segundo o InfoMoney. A queda foi de cerca de 60% em pouco mais de cinco meses.

Quem comprou no meio dessa queda também viu o índice cair mais. Este texto reúne o outro lado da conversa sobre pânicos. A queda pode continuar, e a volta ao topo pode levar anos. Não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo. Ações e outros investimentos podem perder valor.

Quedas que continuam depois do primeiro susto

Em 2008, o índice já havia caído para 45.909 pontos após a quebra do banco americano Lehman Brothers, em 17 de setembro. Até 27 de outubro, perdeu mais de um terço desse nível. O primeiro choque não foi o fundo.

Em 2015, o Ibovespa fechou o ano em 43.349 pontos, queda de 13,3%. Foi o terceiro ano seguido de baixa e o menor fechamento desde 1º de abril de 2009, segundo o InfoMoney. No mesmo ano, o dólar subiu 48,5%.

Março de 2020 mostra outro caso. No dia 18, o índice chegou a cair 14,83% durante o pregão, até 63.547 pontos. Fechou em queda de 10,35%, aos 66.894 pontos, segundo reportagem reproduzida pelo vLex. A queda de março não impediu um ganho no ano: o Ibovespa terminou 2020 aos 119.017 pontos, com alta de 2,92%, segundo o Poder360.

Anos para voltar ao topo, e o risco de cada ação

Descontada a inflação, o Ibovespa só superou o pico de 20 de maio de 2008 em abril de 2026. Em 15 de abril, bateu 199.232 pontos, segundo o Poder360. A reportagem resume o caso no título: “depois de 18 anos”.

No Japão, o Nikkei fechou em 38.915,87 pontos em 29 de dezembro de 1989. O recorde só foi superado em 22 de fevereiro de 2024, quando o índice fechou em 39.098,68 pontos, segundo a agência AP. Foram cerca de 34 anos.

Nos Estados Unidos, o Dow Jones fechou em 381,17 pontos em 3 de setembro de 1929. Caiu até 41,22 em 8 de julho de 1932, cerca de 89% abaixo. Só voltou ao nível de 1929 em 23 de novembro de 1954, segundo o Federal Reserve History. Essa fonte trata do Dow, não do S&P 500. Os números desses três casos são de preço, sem dividendos.

Ninguém acerta o fundo de forma confiável. Não encontramos estudo que meça se investidores conseguem identificar o pior momento de uma queda. Os dados disponíveis mostram o custo de errar a janela. Um estudo de Hendrik Bessembinder, da Universidade Estadual do Arizona (ASU), mostra a concentração dos ganhos: desde 1926, 86 ações responderam por metade da riqueza criada pelo mercado americano. As demais 96% das ações, em conjunto, tiveram retorno parecido com o de títulos do Tesouro de um mês.

O que diz a J.P. Morgan Asset Management: Segundo comunicado da gestora sobre seu Guia de Aposentadoria 2025, deixar de fora os 10 melhores dias do mercado nos últimos 20 anos reduziria a rentabilidade anualizada de uma carteira em quase 50%. Não localizamos o guia completo; a informação vem do comunicado.

O risco de uma empresa específica é outro. Em 12 de janeiro de 2023, as ações da Americanas caíram 77,33% e fecharam a R$ 2,72. No dia anterior, a empresa havia comunicado inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões, segundo o Trademap. Esse risco é da empresa, e não do índice.

A proteção também é diferente. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) cobre depósitos, poupança, CDB (certificado de depósito bancário), LCI e LCA (letras de crédito imobiliário e do agronegócio). A cobertura vale até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado. Ações não estão na lista de produtos cobertos, e cotas de fundos também não aparecem entre eles, segundo o site do FGC. A garantia responde à quebra de uma instituição associada. Não cobre a perda de preço de uma ação.

O que isso significa

O histórico não diz quando um pânico termina. Mostra que a queda pode continuar depois do primeiro choque, e que a volta ao topo pode levar anos. Em 2008, a volta ao pico real veio 18 anos depois. No Japão, a espera foi de cerca de 34 anos.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Quem decide o que fazer com o próprio dinheiro precisa avaliar o prazo, o risco e a proteção de cada produto.

Como fizemos: Usamos os pontos e variações do Ibovespa citados pelo InfoMoney (2008 e 2015), pelo vLex (2020) e pelo Poder360 (2020 e 2026). Os dados do Nikkei vêm da AP, e os do Dow, do Federal Reserve History. Acessamos as fontes em 26/10/2026. Cálculos próprios: a queda de 2008 é de 1 − 29.435 ÷ 73.517, cerca de 60%; de 45.909 até 29.435 pontos, cerca de 36%. Os números são de pontos e de preço, sem dividendos. Não localizamos a série diária da B3 nem a data em que o Ibovespa voltou ao recorde nominal de 2008, e por isso não a incluímos. Também não localizamos fonte verificada para o S&P 500 de 1929.

Fontes