Ibovespa após 2008 e 2020: recuperação rápida em 2020, lenta em 2008
Em 2020, o Ibovespa voltou ao recorde menos de dez meses após o fundo; em 2008, levou quase dez anos. O que os casos mostram, e o que não mostram.

Em 23 de março de 2020, o Ibovespa fechou em 63.569 pontos. Foi o menor nível desde 10 de julho de 2017, em meio ao temor com a pandemia de covid-19, segundo o Poder360.
Naquele mês, o índice caiu 29,91%. Foi a pior queda mensal desde agosto de 1998, segundo a InfoMoney. Pouco mais de nove meses depois, em janeiro de 2021, o Ibovespa já estava acima do recorde de janeiro de 2020.
Comprar na queda é investir quando os preços despencam, apostando na volta. A ideia é antiga. A história da bolsa traz casos diferentes, e nenhum deles funciona como regra.
Quem olha só o desfecho enxerga uma decisão certeira. Quem estava no meio do caminho via o preço cair por semanas, sem saber até onde iria.
Dois episódios, dois prazos
O caso de 2020 foi o mais rápido. Em 12 de março, o Ibovespa caiu 15,15%, sua maior baixa desde setembro de 1998. No dia seguinte, subiu 13,91%, a 82.677,91 pontos, segundo a Money Times. O índice fechou 2020 em 119.017 pontos, com alta de 2,92% no ano, segundo o Poder360. Desde o fechamento de 23 de março, a alta até o último dia do ano foi de cerca de 87%.
O caso de 2008 foi bem mais longo. O pico foi em 20 de maio, aos 73.517 pontos. Depois da quebra do banco Lehman Brothers, o índice chegou a 45.909 pontos em 17 de setembro. Em 27 de outubro, chegou a 29.435 pontos, cerca de 60% abaixo do pico, segundo uma coluna do InfoMoney.
Em pontos, o índice só superou o recorde de 2008 em setembro de 2017, quase dez anos depois, segundo uma coluna do Agrolink. Corrigido pela inflação, o prazo foi maior. Segundo análise de Einar Rivero, da Elos Ayta Consultoria, publicada pelo Poder360, o recorde real só foi superado em abril de 2026, cerca de 18 anos depois do pico.
Os melhores dias e os limites da história
Em 4 de março de 2025, a J.P. Morgan Asset Management divulgou o comunicado do seu Guia de Aposentadoria 2025. Segundo o texto, é provável que os melhores dias do mercado ocorram perto dos piores. Por isso, reagir por emoção às quedas pode prejudicar a carteira.
O mesmo comunicado afirma que perder os 10 melhores dias do mercado nos últimos 20 anos reduziria em quase 50% o retorno anual médio de uma carteira. Trata-se de uma simulação com dados passados, e não do resultado de um investidor real.
No Brasil, março de 2020 mostra o mesmo padrão. Quem vendeu depois da queda de 12 de março não participou da alta de 13 de março, quando a bolsa subiu quase 14%.
Pânicos também podem se aprofundar. Entre 17 de setembro e 27 de outubro de 2008, o índice caiu mais 36%. Quem entrou no mercado em 17 de setembro viu o Ibovespa cair ainda mais nas semanas seguintes.
A recuperação também não segue uma linha reta. Entre 2008 e 2017, o índice teve novas quedas. Em janeiro de 2016, caiu a 62.970 pontos em termos reais, segundo a Elos Ayta, citada pelo Poder360.
O que diz a J.P. Morgan Asset Management: Em comunicado de 4 de março de 2025, a gestora diz que reações emocionais às quedas podem prejudicar as carteiras, porque é provável que os melhores dias ocorram perto dos piores. Não enviamos perguntas à gestora para esta reportagem; a posição vem do comunicado publicado.
Os fundos de 23 de março de 2020 e de 27 de outubro de 2008 só foram reconhecidos depois. Ninguém identifica o fundo de forma confiável no momento em que ele acontece.
Em 2020, a bolsa voltou ao recorde menos de dez meses depois do fundo. Em 2008, levou quase uma década em pontos e quase duas em termos reais. O prazo de cada investidor muda o resultado.
Esta reportagem descreve episódios passados. Não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo, e um resultado passado não garante o futuro. Ações e outros ativos podem perder valor. Antes de qualquer decisão, vale considerar o prazo, a possibilidade de perda e a necessidade de usar o dinheiro.
Como fizemos: Usamos cotações do Ibovespa publicadas pelo Poder360, pela InfoMoney, pela Money Times e pelo Agrolink, além de análise da Elos Ayta e do comunicado da J.P. Morgan Asset Management de 4/3/2025, acessados em 26/10/2026. Os números são nominais, sem correção pela inflação, exceto quando dizemos “em termos reais”. Cálculos próprios: de 119,5 mil para 63.569 pontos, queda de cerca de 47%; de 73.517 para 29.435, cerca de 60%; de 45.909 para 29.435, cerca de 36%; de 63.569 para 119.017, alta de cerca de 87%. Não usamos a série histórica oficial da B3 nesta reportagem, e não tivemos acesso ao relatório completo da J.P. Morgan, só ao comunicado.
Fontes
- Ibovespa termina o ano aos 119.017 pontos, com alta de 2,92% em 2020 — Poder360
- Ibovespa bate recorde aos 125.561 pontos; dólar fecha aos R$ 5,21 — Poder360
- Ibovespa fecha o mês com queda de 30% e tem pior trimestre da história — InfoMoney, 31/3/2020
- Ibovespa salta 13% em dia de trégua global, mas tem pior semana desde 2008 — Money Times, 13/3/2020
- Coluna sobre o início da crise nas finanças globais — InfoMoney, 4/8/2010
- Bovespa: nova bolha (?) — Agrolink, 15/9/2017
- Bolsa de Valores supera recorde real depois de 18 anos — Poder360
- J.P. Morgan Asset Management divulga Guide to Retirement 2025 — comunicado, 4/3/2025
- Sao Paulo Stock Exchange, foto de Rafael Matsunaga — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)


