ComentárioEnsaio de opinião

Soberania tecnológica se constrói com ciência pública continuada

Equipamento da UFMG amplia capacidade de mapear o país, mas seu valor dependerá de acesso compartilhado, investimento permanente e transparência.

Comentário. Análise assinada, de responsabilidade de quem escreve; não representa necessariamente a posição da Revista Terra de Santa Cruz.

Vista aérea de prédios, jardins e vias do campus Pampulha da UFMG
Vista aérea do campus Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.Foto: Carlos Basílio Pinheiro / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) inaugurou na terça-feira (27) um supercomputador com oito aceleradores de inteligência artificial e 400 terabytes de armazenamento. O investimento público de R$ 15 milhões, somado à câmera hiperespectral, tem um objetivo preciso: ampliar o mapeamento do território brasileiro.

O nome Soberano expressa uma ambição legítima. Só 8% do país possuem cartografia na escala de 1 para 25 mil, segundo a UFMG. Sem conhecer o próprio território em detalhe, o Estado enfrenta mais dificuldade para planejar cidades, prevenir desastres e proteger recursos naturais.

Nossa posição é que essa capacidade deve ser tratada como infraestrutura nacional, assim como universidades, laboratórios e redes de pesquisa. Soberania não se limita a cerimônias ou discursos. Ela depende de instituições públicas capazes de produzir, guardar e usar conhecimento estratégico.

Autonomia não é fingir que tudo nasce aqui

O Soberano foi projetado, instalado e configurado por equipes brasileiras. Esse trabalho qualificado é central, mas não significa que cada componente seja nacional. Os oito aceleradores são NVIDIA H200, produto de uma empresa estrangeira.

A origem dos componentes não diminui o projeto. Ela apenas impede uma leitura simplista de autossuficiência. Soberania tecnológica não exige romper com o conhecimento mundial; exige que o Brasil tenha domínio sobre suas decisões, seus dados e suas prioridades de pesquisa.

Uma mesma infraestrutura atende finalidades públicas distintas Aplicações previstas para os dados cartográficos, segundo a UFMG

Área Uso previsto
Meio ambiente Combater desmatamento e mineração ilegal
Proteção civil Planejar resposta a inundações e deslizamentos
Gestão territorial Apoiar municípios, estados e União
Defesa Contribuir para vigilância de fronteiras

Fonte: UFMG. A tabela reúne usos anunciados, não resultados já entregues.

A diversidade de usos mostra por que a governança importa. O projeto tem aplicações ambientais e militares. Essa combinação deve ser acompanhada com transparência, finalidade pública e controle democrático sobre o acesso às informações.

Defender ciência livre não é ignorar a necessidade de proteger dados sensíveis. É exigir regras claras para separar o que precisa de sigilo do que deve servir abertamente à pesquisa e às políticas públicas.

Investimento não pode terminar na inauguração

Um supercomputador exige manutenção, energia, atualização e equipes permanentes. O valor da compra é apenas uma parte do compromisso. Se a infraestrutura envelhecer sem recursos ou pesquisadores, a soberania anunciada se transforma em obsolescência financiada pelo contribuinte.

Por isso, a continuidade orçamentária é tão importante quanto a tecnologia. Universidades federais precisam conservar corpos técnicos, formar novas gerações e sustentar cooperação entre instituições. Não há projeto nacional de longo prazo com equipes submetidas à precariedade.

O compartilhamento previsto pelo projeto GeoIDE é outro ponto positivo. A sigla identifica a iniciativa de extração de informações geográficas para defesa e meio ambiente. Pesquisadores e instituições parceiras poderão usar os equipamentos, em vez de deixá-los restritos a um único laboratório.

Ainda não existe prazo público para mapear todo o país. Também não há resultados que permitam medir ganho de velocidade. Celebrar a inauguração como se a lacuna cartográfica estivesse resolvida seria propaganda, não jornalismo.

O que diz a UFMG: A vice-reitora Alamanda Kfoury afirmou que a tecnologia deverá transformar grandes volumes de dados em informações úteis e acessíveis. “Não há soberania e desenvolvimento sem democracia, ciência livre e investimento continuado em pesquisa”, concluiu.

O critério é o benefício público

O projeto será bem-sucedido se ajudar um município a identificar uma área de risco antes da chuva. Também será se permitir acompanhar biomas, combater crimes ambientais e orientar investimentos com dados confiáveis.

Esses resultados importam mais do que o nome escolhido para a máquina. O Brasil precisa de capacidade científica para decidir por si, cooperar sem subordinação e colocar tecnologia a serviço da população. Esse compromisso também protege o interior, onde mapas melhores podem orientar serviços essenciais, reduzir desigualdades regionais e aproximar a pesquisa federal das necessidades locais mesmo fora das capitais.

A defesa da soberania, portanto, converge com a defesa da universidade pública. Uma exige a outra. Cabe ao Estado manter o investimento e à sociedade fiscalizar se o conhecimento produzido chega a quem precisa.

Como fizemos: Analisamos os comunicados da UFMG e do MEC e a reportagem do g1, acessados em 28/10/2026. Comparamos os componentes importados com a configuração nacional e organizamos os usos anunciados em quatro áreas. As avaliações sobre democracia, orçamento e finalidade pública são posição editorial da revista.

Fontes