FéRevista Terra de Santa Cruz

Simão e Judas dividem festa; devoção mensal virou tradição

Igreja celebra os dois apóstolos em 28 de outubro; santuário de São Paulo ampliou a memória para todo dia 28 de cada mês.

Fachada iluminada do Santuário São Judas Tadeu durante a noite
Santuário São Judas Tadeu, no Jabaquara, em São Paulo, fotografado em agosto de 2009.Foto: Guilherme Peev dos S… / Panoramio / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A Igreja Católica celebra nesta quarta-feira (28) os apóstolos Simão e Judas Tadeu na mesma data litúrgica. A tradição relata que os dois percorreram juntos regiões do Império Persa para anunciar o Evangelho. Essa associação missionária explica sua presença conjunta na memória ocidental.

Judas não é o Iscariotes, apóstolo identificado com a traição de Jesus. O próprio Evangelho de João faz a distinção ao apresentar sua pergunta na Última Ceia. O nome Tadeu ajuda a diferenciar as duas figuras bíblicas.

Simão aparece nos Evangelhos com a alcunha de Zelota. Há menos informações sobre ele nos textos bíblicos. Por isso, vários detalhes de sua trajetória vêm de tradições posteriores, e não devem ser apresentados como fatos igualmente documentados.

O que se sabe sobre cada apóstolo

Os dois integram o grupo dos Doze escolhidos por Jesus. A leitura litúrgica do dia recorda os apóstolos como fundamento da comunidade cristã. As tradições sobre seus martírios e viagens variam entre regiões e comunidades.

Simão e Judas têm registros e tradições distintos Elementos reunidos pela CNBB sobre os santos celebrados em 28 de outubro

Aspecto Simão Judas Tadeu
Identificação Chamado de Zelota Judas, não o Iscariotes
Tradição missionária Pregação ao lado de Judas Missão ao lado de Simão
Obra associada Sem evangelho atribuído Carta de Judas, com 25 versículos
Devoção Memória conjunta em 28 de outubro Invocado em causas difíceis ou impossíveis

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). As tradições não têm o mesmo grau de documentação dos Evangelhos.

A Carta de Judas é um pequeno texto bíblico de 25 versículos. A tradição identifica seu autor com o apóstolo celebrado hoje. O escrito alerta contra falsos mestres e convida à perseverança na fé.

Como surgiu a invocação das causas impossíveis

A CNBB relaciona essa devoção a relatos de revelações atribuídas a Santa Brígida e Santa Gertrudes. Neles, Judas seria invocado com confiança nos casos mais desesperados. São textos de espiritualidade, não registros biográficos do apóstolo.

A devoção cresceu ao longo dos séculos e ganhou expressões locais. No Santuário São Judas Tadeu, no Jabaquara, em São Paulo, a memória não se restringe a outubro. Todo dia 28 de cada mês reúne fiéis para missas, orações e confissões.

Segundo o santuário, o primeiro vigário, padre João Büscher, sugeriu a prática. A paróquia foi fundada em 1940. Relatos antigos contam que bondes lotados chegavam do centro para as celebrações mensais.

O que diz a CNBB: Dom Carlos José, bispo de Apucarana, afirma que a memória não deve se limitar aos milagres atribuídos ao santo. Ele destaca a escolha de Judas entre os Doze e sua fidelidade à missão de anunciar o amor de Cristo.

Uma tradição religiosa, não uma aparição

O próprio santuário esclarece que a afluência de fiéis não decorre de relato de aparição. A história local combina convite pastoral, peregrinação e gratidão dos participantes. O dia mensal transformou a devoção em parte da rotina do bairro.

A memória anual de 28 de outubro permanece como a festa litúrgica compartilhada com Simão. As celebrações mensais são uma tradição pastoral específica do santuário paulistano. Confundir essas duas formas pode levar o leitor a achar que toda a Igreja celebra Judas em todo dia 28.

A data oferece, portanto, duas lições distintas. Simão representa os apóstolos menos conhecidos nos textos bíblicos. Judas mostra como uma figura bíblica ganhou novas camadas de devoção popular, sem perder a distinção em relação ao Iscariotes.

Como fizemos: Consultamos a explicação da CNBB e o histórico publicado pelo Santuário São Judas Tadeu. Separamos Evangelhos, tradições posteriores e costumes locais para não atribuir o mesmo grau de certeza a todos os relatos. A contagem de 25 versículos segue a descrição da CNBB.

Fontes