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Endividados de risco chegam a 20,3 milhões, e renda menor pesa mais

São 17% dos devedores do sistema financeiro; entre quem ganha até dois salários mínimos, dívidas consomem 42% da renda, diz o BC.

Gabriel Galípolo fala ao microfone durante sabatina no Senado, com dois senadores ao lado
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, durante sabatina no Senado em 8 de outubro de 2024.Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Brasil tinha 20,3 milhões de endividados de risco em junho de 2026, segundo relatório do Banco Central (BC) divulgado nesta terça-feira (27). O total cresceu 75% em cinco anos e representa 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional. Esse sistema reúne bancos e demais instituições autorizadas a operar crédito.

O peso não é igual entre as rendas. Pessoas com até dois salários mínimos destinavam 42% do que recebiam às dívidas. Entre quem ganhava mais de dez salários, a parcela era 18,6%. A primeira taxa é cerca de 2,3 vezes a segunda, conforme cálculo da redação.

Risco não significa que todos estão inadimplentes

O BC usa quatro critérios para identificar vulnerabilidade. São atraso superior a 90 dias, dívidas acima de metade da renda, uso simultâneo de três modalidades caras e renda restante abaixo da linha de pobreza. A pessoa precisa combinar ao menos dois critérios.

As modalidades consideradas no terceiro item são cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo. Portanto, os 20,3 milhões não estão necessariamente com pagamentos atrasados. O indicador mede maior exposição a dificuldades financeiras.

Comprometimento da renda é mais que o dobro na faixa mais pobre Dados do BC referentes a junho de 2026, salvo indicação

Indicador Resultado
Endividados de risco 20,3 milhões
Crescimento desde junho de 2021 75%
Renda destinada a dívidas, até 2 salários mínimos 42%
Renda destinada a dívidas, acima de 10 salários 18,6%

Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, outubro de 2026.

Cartão consome parte maior do orçamento pobre

O grupo com até dois salários mínimos reúne 61,2 milhões de pessoas, de acordo com o relatório. Nessa faixa, somente o cartão de crédito respondia por comprometimento equivalente a 15% da renda. O percentual se soma ao das demais dívidas no total de 42%.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, citou crescimento do cartão, do cheque especial e do empréstimo pessoal não consignado. Segundo ele, a expansão ocorre com pouca sensibilidade ao preço. Em outras palavras, juros altos não foram suficientes para conter a procura nessas modalidades.

O BC pretende anunciar novas medidas ainda em 2026. A prioridade será dada a consumidores que já usam o rotativo do cartão ou têm atrasos relevantes. O relatório não detalha quais instrumentos serão adotados.

O que diz o Banco Central: Galípolo afirmou: “Pretendemos adicionar medidas ainda este ano”. Na apresentação do relatório, ele disse que a preocupação está nas modalidades sem garantia que crescem “de maneira pouco sensível a preço”.

Regras anteriores só começam em 2027

Na sexta-feira (23), o BC já havia aprovado regras para conter ofertas inadequadas. A partir de 31 de março de 2027, instituições deverão permitir o bloqueio de publicidade e propostas ativas de crédito. Para consumidores vulneráveis, a oferta exigirá autorização prévia e específica.

Nesses casos, propostas autorizadas deverão melhorar a condição financeira, como renegociação ou portabilidade. Portabilidade é a transferência da dívida para outra instituição. Em 1º de julho de 2027, começam as regras do painel de dívidas e da oferta de crédito durante transações pelo Pix.

O que vem agora

O BC avalia que o sistema financeiro mantém condições confortáveis de capital e liquidez, sem risco relevante à estabilidade. Isso não elimina a pressão sobre os orçamentos. O próprio relatório registra o maior comprometimento de renda das famílias em 21 anos.

A próxima etapa será conhecer as medidas prometidas para este ano. Até lá, as regras anunciadas na semana passada ainda não estão em vigor. O dado central é a desigualdade: quem tem menos renda compromete uma fatia mais que duas vezes maior com dívidas.

Como fizemos: Consultamos o Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026, divulgado em 27/10/2026, e as resoluções explicadas pelo BC em 23/10. Calculamos 42 dividido por 18,6 para comparar o comprometimento de renda das duas faixas. O indicador de risco não deve ser lido como total de inadimplentes.

Fontes