Fé

Quem banca Flávio não são as igrejas, mas os púlpitos fazem campanha

Dos R$ 61,7 milhões arrecadados por Flávio até 1º de outubro, 89% vieram do fundo partidário do PL — enquanto cultos e púlpitos pedem voto em seu nome.

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília, com as duas cúpulas dos plenários e as torres gêmeas ao centro
O Congresso Nacional, sede do Poder Legislativo, em Brasília, em foto de 13 de junho de 2019. Foi pelo fundo partidário, dinheiro público repassado aos partidos, que passou a maior parte do dinheiro da campanha de Flávio Bolsonaro.Foto: Leonardo Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Até 1º de outubro, a campanha de Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), havia arrecadado R$ 61,7 milhões. O dado vem de levantamento do Poder360 sobre as prestações de contas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Desse total, R$ 55,2 milhões — 89% — saíram da diretoria nacional do PL, pelo fundo partidário, o dinheiro público repassado aos partidos. Pastores e igrejas não aparecem entre os doadores.

O recorte se repete no passado. Na campanha ao Senado de 2018, o maior doador direto de Flávio foi a campanha do pai, Jair Bolsonaro, com R$ 200 mil, segundo A Gazeta. Doações em dinheiro somaram cerca de R$ 712 mil e chegaram a ser revistas pelo Ministério Público (MP) do Rio. Nomes religiosos não constavam da prestação de contas.

Os doadores individuais de 2026 desenham outra paisagem. São Luiz da Rocha Salles Filho, com R$ 1 milhão, e Erasmo Battistella, da Be8, com R$ 500 mil. Vêm ainda Fernando de Castro Marques, da União Química, com R$ 500 mil, e a família Gurgel Rocha, do Guararapes, segundo o Poder360. Nenhum é templo, denominação ou pastor.

Resta uma ressalva honesta. Os gráficos completos do TSE não puderam ser conferidos um a um pela apuração, e um doador religioso em posição menor não pode ser descartado. O quadro geral, porém, é nítido. O dinheiro de Flávio é público e partidário — não eclesiástico.

Isso importa porque a narrativa da campanha é outra. Flávio fala às igrejas como seu campeão, e os cultos que o recebem tratam o voto como questão de fé. A prestação de contas mostra um candidato financiado pelo partido, com púlpitos fazendo trabalho de campanha fora da conta. É esse descompasso que o Ministério Público é chamado a examinar.

O púlpito é que pede voto

Em maio, o pastor Silas Malafaia declarou apoio a Flávio durante um culto na própria igreja, em Penha, no Rio. Foi a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), relatou o Estado de Minas. O apoio saiu do púlpito, no meio do culto, diante da congregação.

O culto de apoio virou queixa no MP. O Movimento Brasil Laico (MBLaico) alegou abuso de poder religioso e doação de fonte vedada — igrejas não podem financiar campanha. O procurador decidirá se entra com ação, segundo a Agência Pública. Não há decisão até agora.

No dia 10 de outubro, foi a vez do Maracanãzinho, ginásio público do estado do Rio. No centenário da Assembleia de Deus de Madureira, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a repetir 14 vezes o grito “irmão vota em irmão”. Flávio cantou no palco, segundo o Jornal de Brasília. O MBLaico voltou ao MP: pediu o cancelamento da candidatura e a revisão da imunidade tributária da igreja, relatou o site ICL Notícias.

Onde religião e dinheiro já se cruzaram

Fora desta campanha, o registro mostra cruzamentos entre fé e dinheiro público — sempre com atribuição, e sem Flávio no centro. Em 2022, o PL repassou R$ 500 mil do fundo eleitoral a Samuel Malafaia, irmão do pastor, candidato à Assembleia do Rio. Outros candidatos do partido no estado receberam em média R$ 66 mil, segundo o Brasil de Fato, veículo alinhado à esquerda. Não há papel comprovado de Flávio no caso.

Em 2024, a Associação Vitória em Cristo, mantida por dízimos e ofertas, bancava os custos de um ato de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. Após críticas, o pastor disse que pagaria do próprio bolso o trio elétrico de R$ 55 mil, segundo o Metrópoles. A pressão veio das redes sociais, registra a coluna de Guilherme Amado. O dízimo, que sustenta a obra, quase virou palanque.

O que diz Flávio Bolsonaro: no culto do Maracanãzinho, o candidato disse que quem pedia voto não era o bispo, “era a igreja”, segundo o Jornal de Brasília.

Faltam oito dias para o segundo turno, em 25 de outubro. O eleitor de fé tem diante de si um contraste: a campanha fala a linguagem das igrejas, mas é o fundo partidário que a paga. Os púlpitos que pedem voto em seu nome não constam da prestação de contas. É essa fusão de altar e palanque que o MP é chamado a examinar.

Quem paga a conta da fusão não é o partido. É a credibilidade das igrejas, diante dos próprios fiéis e de quem não crê. Templo de qualquer credo merece independência, não comitê — e o eleitor que ora sabe distinguir os dois.

Fontes