Fé

Malafaia: do apoio ao afastamento, e de volta

O pastor apoiou Flávio em culto na própria igreja em maio, afastou-se após o áudio com Vorcaro e, em agosto, disse que apoia sem organizar atos de campanha.

O pastor Silas Malafaia em foto de arquivo de 11 de abril de 2019, da cobertura oficial da Presidência da República
O pastor Silas Malafaia, em foto oficial de 11 de abril de 2019, feita pela fotografia da Presidência da República (foto de arquivo).Foto: Marcos Corrêa / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 22 de janeiro, o pastor Silas Malafaia disse que a candidatura de Flávio Bolsonaro “não empolgou”. Preferia uma chapa com Tarsício e Michelle, relatou o site Fuxico Gospel. Nove meses depois, o apoio existe, mas a um braço de distância. Em 18 de agosto, o pastor disse ao Poder360 que apoia Flávio — sem organizar atos de campanha. Entre uma fala e outra, houve culto, áudio e recuo.

O apoio no culto de Penha

Entre os dias 3 e 5 de maio, Malafaia declarou apoio a Flávio durante um culto na sua igreja, em Penha, no Rio. Foi a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), relatou o Estado de Minas. Na coluna Grande Angular do Metrópoles, o pastor resumiu a posição com uma frase: “eu sou amigo, não inimigo”. Para o mundo evangélico, foi um dos apoios mais valiosos da eleição — saído de um dos púlpitos mais famosos do país.

O culto de apoio virou queixa no Ministério Público (MP). O Movimento Brasil Laico (MBLaico) alegou abuso de poder religioso e doação de fonte vedada — igrejas não podem financiar campanha. O procurador decidirá se entra com ação, segundo a Agência Pública. Não há decisão até agora.

O episódio mostra o custo de empreender o templo. Um apoio dito no palco de um culto virou matéria para o promotor. A independência de um púlpito leva décadas para se construir. Uma noite de campanha pode colocá-la em discussão.

O áudio, o recuo e a volta

Em 13 de maio, o Intercept revelou um áudio em que Flávio negocia com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. No pedido, US$ 24 milhões de patrocínio para um filme sobre o pai, conforme a apuração do Intercept. Na véspera da prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, Flávio havia escrito ao banqueiro: “irmão, estou e estarei contigo sempre”.

O caso rendeu um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), aberto a pedido da Polícia Federal (PF), segundo a Agência Brasil. O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Flávio é investigado, não réu. Para um candidato que fala em nome da fé, o problema do caso não é jurídico — é de testemunho.

O campo evangélico sentiu o choque. Após o áudio, Malafaia se afastou da campanha em junho; em agosto, disse que apoia, mas não organizará atos, segundo o Poder360. O apoio evangélico ao candidato caiu de 61% para 52% entre maio e junho, segundo pesquisa Quaest relatada pela Agência Pública. O recuo do pastor e a queda nas pesquisas ocorreram no mesmo intervalo.

A volta veio pela metade: apoio sim, palco não. O “mas” da frase de Malafaia faz todo o trabalho da sentença. Depois de um culto de apoio e de um recuo público, o pastor conserva a amizade e evita o palanque. Quem leu a fala de janeiro nota a continuidade: a candidatura que “não empolgou” segue sem empolgar, agora por escrito.

O que diz Silas Malafaia: o pastor apoia a candidatura de Flávio, mas disse que não organizará atos de campanha, segundo o Poder360. No culto de maio, resumiu a posição: “eu sou amigo, não inimigo”.

Faltam seis dias para o segundo turno, em 25 de outubro, e o eleitorado evangélico é o mais disputado da corrida. Entre 8 e 15 de outubro, a intenção de voto em Flávio entre evangélicos caiu de 69% para 62%, segundo o Datafolha. O arco de Malafaia ajuda a explicar o movimento: quando o púlpito mais famoso do país apoia com o braço esticado, o fiel percebe.

Esta revista defende o direito de qualquer pastor, de qualquer credo, de ter e declarar preferências políticas. O que o registro pede a quem tem fé é outra coisa: pesar o candidato pelo histórico, não pelo palanque alheio. E não entregar o templo a quem transforma a fé em palanque.

Fontes