Fé

Pastor que batizou Flávio defendeu em livro tirar o título de Aparecida

O pastor que conduziu o batismo de Flávio em 2024 escreveu livro contra o título de padroeira; o candidato nega a ideia e culpa o PT pelo boato.

Imagem original de Nossa Senhora Aparecida em nicho dourado, cercado por mosaico de pastilhas, na Basílica de Aparecida
A imagem original de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no nicho do Santuário Nacional, em Aparecida (SP).Foto: Neospo / Wikimedia Commons (CC BY 2.5)

Em 2024, Flávio Bolsonaro foi batizado em Brasília, ao lado da esposa. O pastor que conduziu a cerimônia havia escrito um livro defendendo a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A informação foi registrada pela CNN Brasil. Em plena campanha, o candidato nega qualquer plano nesse sentido e chama a história de mentira do Partido dos Trabalhadores (PT).

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Flávio pode não ter plano algum contra a padroeira. Mas o livro existe, e quem o escreveu é o pastor que o batizou. Esse é o fato que o candidato evita encarar quando fala em boato.

Um batismo entre quatro

O batismo de 2024 não foi o único. Segundo a Agência Pública, Flávio foi batizado quatro vezes. A primeira foi na juventude, no bairro da Tijuca, no Rio.

A segunda, em 2016, no rio Jordão, numa viagem liderada pelo Pastor Everaldo. A terceira foi a de Brasília, em 2024. A quarta, de novo no Jordão, no início de 2026.

Na tradição evangélica, o batismo é um testemunho público de fé. Quem se batiza declara diante da igreja que assume um compromisso com Cristo. Por isso, a escolha de quem conduz a cerimônia não é detalhe. É um gesto de confiança espiritual.

Alguns pastores ouvidos pela Agência Pública veem nos quatro batismos também um lado político. Não há como medir a fé de ninguém, e esta revista não tenta fazê-lo. O que se pode medir são os atos públicos e as companhias escolhidas.

O título que divide

Para os católicos, Aparecida é a mãe que acompanha o país desde que pescadores encontraram sua imagem no rio Paraíba do Sul. O título de padroeira expressa essa devoção. Um livro que defende retirá-lo toca, portanto, um ponto central da fé popular.

Não há registro de que Flávio apoie a tese do livro. Ele nega a ideia com clareza, segundo a CNN Brasil. A reportagem, porém, não localizou declaração dele sobre o livro ou sobre o autor. Em público, o candidato preferiu apontar culpados pela circulação do assunto.

Em 27 de setembro, Flávio disse que pessoas dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudaram a espalhar o boato. A CNBB negou no mesmo dia. Segundo o Poder360, a entidade disse que a acusação não tinha fatos nem provas. Um bispo ainda criticou o histórico de ataques da família Bolsonaro à CNBB, segundo o portal Metrópoles.

O desfecho é curioso. A pista mais visível da desconfiança estava no livro do pastor que batizou o candidato, e não em um gabinete de bispos. Ainda assim, foram os bispos que Flávio acusou publicamente.

O caso se soma a uma campanha que usa a religião como argumento central. Em agosto, Flávio prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas.

Quem leva a fé ao palanque assume o compromisso de prestar contas também nesse terreno. O eleitor católico tem o direito de perguntar o que o candidato pensa do livro do pastor que o batizou. E tem o direito de receber uma resposta direta, e não uma acusação contra a CNBB.

Também cabe uma palavra aos evangélicos. Muitos discordam da devoção aos santos, e isso faz parte da liberdade religiosa. Discordar, porém, é diferente de transformar a discordância em plano de governo. É essa fronteira que um candidato a presidente precisa deixar clara.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato nega que pretenda tirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida e chama a história de mentira do PT, segundo a CNN Brasil. Ele também atribuiu a pessoas da CNBB a divulgação do boato, o que a entidade negou.

O segundo turno é em 25 de outubro. Até lá, Flávio pode resolver o assunto com uma frase simples sobre o livro e seu autor. Enquanto não o faz, a dúvida dos católicos tem endereço conhecido. E não é a sede da CNBB.

Fontes