Batismo no Jordão em ano eleitoral: o quarto de Flávio
No início de 2026, Flávio foi batizado de novo no rio Jordão, pela quarta vez na vida; pastores ouvidos pela Agência Pública veem nisso um lado político.

No início de 2026, ano em que disputa a Presidência, Flávio Bolsonaro foi batizado no rio Jordão. Foi o seu quarto batismo, segundo a Agência Pública. O segundo também tinha sido no Jordão, em 2016. Alguns pastores ouvidos pela reportagem veem nos batismos repetidos, em parte, um gesto político.
O rio Jordão tem lugar especial na fé cristã. Segundo os Evangelhos, foi ali que João Batista batizou Jesus. Por isso, o local recebe peregrinos do mundo inteiro, que entram nas águas para renovar a fé. Um batismo no Jordão tem peso simbólico que nenhuma igreja de bairro oferece.
Quatro batismos em uma vida
Flávio se diz evangélico desde a juventude. Foi criado na fé pela mãe e estudou em escola batista, segundo a Agência Pública. O primeiro batismo foi ainda jovem, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.
O segundo veio em 2016, no Jordão, numa viagem liderada pelo Pastor Everaldo. O terceiro foi em 2024, em Brasília, ao lado da esposa. O quarto, de novo no Jordão, aconteceu no início de 2026. Os registros também aparecem no Congresso em Foco.
Na maior parte das igrejas evangélicas, o batismo é um passo dado uma vez. É o testemunho público de quem decide seguir Cristo. Há quem se batize de novo ao mudar de igreja ou depois de uma conversão mais profunda. Por isso, quatro batismos chamaram a atenção de pastores.
O peso do calendário
Ninguém pode medir a fé de outra pessoa, e esta revista não tenta fazê-lo. O que se pode examinar é o calendário dos gestos públicos. O quarto batismo veio no ano da eleição presidencial, e meses depois a fé virou o eixo da campanha.
Em junho, na Marcha para Jesus, Flávio disse que o Brasil enfrenta uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil. Em agosto, prometeu decretar que o país é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas.
Em 10 de outubro, no Maracanãzinho, o candidato cantou no culto de centenário da Assembleia de Deus de Madureira. O bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a repetir 14 vezes “irmão vota em irmão”, segundo o Jornal de Brasília. Na sexta-feira (16), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou apagar seu post “Lula não feche minha igreja” por falta de base factual, segundo a CNN Brasil.
Nesse contexto, a desconfiança dos pastores ganha sentido. Alguns deles disseram à Agência Pública que Flávio “não parece evangélico”. Citaram festas de carnaval, o uso de cigarro eletrônico e a linguagem do candidato.
Não é um veredito sobre a alma de ninguém. É a leitura de quem convive com a fé no dia a dia das igrejas. E é uma leitura que a campanha não conseguiu desfazer com mais um mergulho nas águas sagradas.
A campanha precisa desse eleitorado. Entre maio e junho, o apoio a Flávio entre os evangélicos caiu de 61% para 52%, segundo pesquisa Quaest relatada pela Agência Pública. Uma imagem de fé renovada, nas águas do Jordão, ajuda a reforçar a identidade religiosa do candidato.
Vale registrar um dado a favor do candidato: a fé não aparece no caixa da campanha. Segundo o Poder360, 89% dos R$ 61,7 milhões arrecadados até 1º de outubro vieram do fundo partidário do Partido Liberal (PL). A disputa pelos evangélicos é feita nos púlpitos, e não nas contas.
Batismo, na tradição cristã, é morte para a vida velha e nascimento para a nova. É um compromisso de conduta, e não só de imagem. Quem se batiza em público, e mais de uma vez, convida os irmãos a cobrar coerência. É isso que parte dos pastores está fazendo.
O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato se apresenta como evangélico desde a juventude, criado na fé pela mãe e formado em escola batista, segundo a Agência Pública. A reportagem não localizou explicação pública dele sobre os quatro batismos.
O segundo turno é em 25 de outubro. Nenhum eleitor precisa julgar a fé de Flávio, e nenhum deveria. Mas todos podem perguntar se os gestos religiosos do candidato vêm acompanhados de uma conduta à altura. As águas do Jordão não respondem por ele.
Fontes
- Por que imagem Bolsonaro não cola nos evangélicos — Agência Pública
- Flávio pode ser o primeiro presidente evangélico eleito pelo voto direto — Congresso em Foco
- Marcha para Jesus: Flávio cita guerra espiritual — CNN Brasil
- Flávio diz que vai decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo — O Tempo
- Flávio promete declarar Brasil a Jesus, e pastor critica — Estado de Minas
- Flávio Bolsonaro canta em culto e recebe pedido simulado de voto — Jornal de Brasília
- Estela Aranha manda Flávio apagar post que sugere que Lula fecharia igrejas — CNN Brasil
- Saiba quais são os principais doadores de Lula e Flávio — Poder360



