Fé

Batismo no Jordão em ano eleitoral: o quarto de Flávio

No início de 2026, Flávio foi batizado de novo no rio Jordão, pela quarta vez na vida; pastores ouvidos pela Agência Pública veem nisso um lado político.

Peregrinos entram nas águas barrentas do rio Jordão, em degraus de pedra, para cerimônias de batismo, sob palmeiras
Grupos de peregrinos em batismo no sítio de Qasr al-Yahud, às margens do rio Jordão, em abril de 2019 (foto ilustrativa do local de peregrinação).Foto: Bahnfrend / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No início de 2026, ano em que disputa a Presidência, Flávio Bolsonaro foi batizado no rio Jordão. Foi o seu quarto batismo, segundo a Agência Pública. O segundo também tinha sido no Jordão, em 2016. Alguns pastores ouvidos pela reportagem veem nos batismos repetidos, em parte, um gesto político.

O rio Jordão tem lugar especial na fé cristã. Segundo os Evangelhos, foi ali que João Batista batizou Jesus. Por isso, o local recebe peregrinos do mundo inteiro, que entram nas águas para renovar a fé. Um batismo no Jordão tem peso simbólico que nenhuma igreja de bairro oferece.

Quatro batismos em uma vida

Flávio se diz evangélico desde a juventude. Foi criado na fé pela mãe e estudou em escola batista, segundo a Agência Pública. O primeiro batismo foi ainda jovem, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O segundo veio em 2016, no Jordão, numa viagem liderada pelo Pastor Everaldo. O terceiro foi em 2024, em Brasília, ao lado da esposa. O quarto, de novo no Jordão, aconteceu no início de 2026. Os registros também aparecem no Congresso em Foco.

Na maior parte das igrejas evangélicas, o batismo é um passo dado uma vez. É o testemunho público de quem decide seguir Cristo. Há quem se batize de novo ao mudar de igreja ou depois de uma conversão mais profunda. Por isso, quatro batismos chamaram a atenção de pastores.

O peso do calendário

Ninguém pode medir a fé de outra pessoa, e esta revista não tenta fazê-lo. O que se pode examinar é o calendário dos gestos públicos. O quarto batismo veio no ano da eleição presidencial, e meses depois a fé virou o eixo da campanha.

Em junho, na Marcha para Jesus, Flávio disse que o Brasil enfrenta uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil. Em agosto, prometeu decretar que o país é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas.

Em 10 de outubro, no Maracanãzinho, o candidato cantou no culto de centenário da Assembleia de Deus de Madureira. O bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a repetir 14 vezes “irmão vota em irmão”, segundo o Jornal de Brasília. Na sexta-feira (16), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou apagar seu post “Lula não feche minha igreja” por falta de base factual, segundo a CNN Brasil.

Nesse contexto, a desconfiança dos pastores ganha sentido. Alguns deles disseram à Agência Pública que Flávio “não parece evangélico”. Citaram festas de carnaval, o uso de cigarro eletrônico e a linguagem do candidato.

Não é um veredito sobre a alma de ninguém. É a leitura de quem convive com a fé no dia a dia das igrejas. E é uma leitura que a campanha não conseguiu desfazer com mais um mergulho nas águas sagradas.

A campanha precisa desse eleitorado. Entre maio e junho, o apoio a Flávio entre os evangélicos caiu de 61% para 52%, segundo pesquisa Quaest relatada pela Agência Pública. Uma imagem de fé renovada, nas águas do Jordão, ajuda a reforçar a identidade religiosa do candidato.

Vale registrar um dado a favor do candidato: a fé não aparece no caixa da campanha. Segundo o Poder360, 89% dos R$ 61,7 milhões arrecadados até 1º de outubro vieram do fundo partidário do Partido Liberal (PL). A disputa pelos evangélicos é feita nos púlpitos, e não nas contas.

Batismo, na tradição cristã, é morte para a vida velha e nascimento para a nova. É um compromisso de conduta, e não só de imagem. Quem se batiza em público, e mais de uma vez, convida os irmãos a cobrar coerência. É isso que parte dos pastores está fazendo.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato se apresenta como evangélico desde a juventude, criado na fé pela mãe e formado em escola batista, segundo a Agência Pública. A reportagem não localizou explicação pública dele sobre os quatro batismos.

O segundo turno é em 25 de outubro. Nenhum eleitor precisa julgar a fé de Flávio, e nenhum deveria. Mas todos podem perguntar se os gestos religiosos do candidato vêm acompanhados de uma conduta à altura. As águas do Jordão não respondem por ele.

Fontes