Fé

Associação de Malafaia, mantida por dízimos, bancou ato de Bolsonaro

A entidade de Malafaia, mantida com dízimos, assumiu o custeio do ato de Jair na Paulista; após críticas, o pastor disse que pagaria o trio de R$ 55 mil.

Avião presidencial sobrevoa a Avenida Paulista, em São Paulo, durante ato de 7 de setembro de 2021
O então presidente Jair Bolsonaro sobrevoa a Avenida Paulista durante ato de 7 de setembro de 2021, em São Paulo (foto de arquivo).Foto: Clauber Cleber Caetano / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em fevereiro de 2024, a Associação Vitória em Cristo assumiu o custeio de um ato em apoio a Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo. A entidade é do pastor Silas Malafaia e é mantida com dízimos e ofertas dos fiéis. O trio elétrico do evento, o caminhão de palco e som, custaria R$ 55 mil. O caso foi relatado pela coluna de Guilherme Amado, no portal Metrópoles.

O plano durou pouco. Quando o uso do dinheiro religioso virou alvo de críticas nas redes sociais, Malafaia recuou. Ele disse que desistia de usar recursos da entidade e que pagaria os R$ 55 mil do trio elétrico do próprio bolso, segundo o Metrópoles. A associação, então, ficou de fora da conta do ato.

Dízimo é a parte da renda que o fiel entrega à sua igreja, mês a mês, para sustentar a obra. Oferta é a contribuição voluntária, além do dízimo. Na conta de milhões de evangélicos, esse dinheiro sustenta cultos, assistência e a estrutura da congregação. A Vitória em Cristo é ligada à Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), a igreja de Malafaia no bairro da Penha, no Rio de Janeiro.

Para quem entrega, o dízimo não é taxa: é um ato de confiança. O fiel espera que aquele dinheiro sirva à obra da igreja, e não a um palanque. Quando a entidade de um pastor famoso aparece pagando conta de ato político, quem perde é a credibilidade da obra — e a confiança de quem a sustenta.

De Jair a Flávio

O episódio da Paulista ficou para trás, mas o roteiro não. Dois anos depois, Malafaia é um dos apoios mais visíveis da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Entre os dias 3 e 5 de maio, o pastor declarou apoio ao senador durante um culto na própria igreja, relatou o Estado de Minas.

O apoio nunca foi tranquilo. Malafaia se afastou do candidato em junho, após a divulgação de áudios com o banqueiro Daniel Vorcaro, e só voltou a apoiá-lo em agosto, segundo o Poder360. De volta, impôs um limite: apoia Flávio, mas não organizará atos de campanha.

O Movimento Brasil Laico (MBLaico), entidade que defende a separação entre religião e Estado, levou o caso do culto de maio ao Ministério Público (MP). Alegou abuso de poder religioso e doação de fonte vedada, já que igrejas não podem financiar campanhas, segundo a Agência Pública. O procurador decidirá se entra com ação, e ainda não há decisão.

O que os números mostram

Nos registros oficiais, não há dinheiro de igreja na campanha de Flávio. Segundo levantamento do Poder360, a campanha arrecadou R$ 61,7 milhões até 1º de outubro. Desse total, R$ 55,2 milhões — 89% — vieram do fundo partidário do Partido Liberal (PL). A lista dos principais doadores não traz pastores nem denominações.

O registro mostra, sim, dinheiro partidário no campo do pastor. Em 2022, o PL destinou R$ 500 mil do fundo eleitoral a Samuel Malafaia, irmão de Silas, candidato à Assembleia Legislativa do Rio. Os demais candidatos da sigla receberam, em média, R$ 66 mil, segundo o Brasil de Fato. Nenhum papel de Flávio no repasse foi apontado.

O que diz Silas Malafaia: após as críticas, o pastor recuou e afirmou que pagaria os R$ 55 mil do trio elétrico com o próprio dinheiro, sem recursos da associação, segundo o Metrópoles. Sobre a campanha de 2026, diz que apoia Flávio Bolsonaro, mas que não organizará atos de campanha, conforme o Poder360.

A associação só saiu da conta do ato quando o uso do dízimo virou alvo de críticas públicas. Em 2024, a fronteira entre o altar e o palanque foi segurada pela pressão nas redes, não por regra da casa. No segundo turno de 25 de outubro, entre Flávio e o presidente Lula, o eleitorado evangélico é um dos mais disputados do país. O registro está na mesa: púlpito em campanha, culto com pedido de apoio e, antes, o dízimo às voltas com a conta de um ato político.

Fontes