Fé

A Universal se diz neutra; o Republicanos fecha com Flávio

O partido ligado à Igreja Universal confirmou apoio a Flávio em 7 de outubro; uma semana depois, a igreja avisou aos seus pastores que fica neutra.

Templo de Salomão, templo-sede da Igreja Universal do Reino de Deus em São Paulo, iluminado à noite, com um grande candelabro no jardim
O Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, no bairro do Brás, em São Paulo, em foto de setembro de 2015.Foto: Tainá Freitas / Núcleo Editorial / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Nesta quarta-feira (14), a Igreja Universal do Reino de Deus avisou aos seus pastores que ficará neutra no segundo turno. A informação é da revista CartaCapital. Uma semana antes, em 7 de outubro, o Republicanos, partido ligado à igreja, confirmou apoio a Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), segundo a CNN Brasil.

A igreja fala uma língua, e o partido, outra. No altar, a orientação é não declarar voto. Na política, a legenda já fechou com o candidato. Para o fiel da Universal, o recado chega dividido a 11 dias da votação de 25 de outubro.

Dois recados para o mesmo fiel

A neutralidade pesa porque o Republicanos é o braço partidário da Universal. Quando a igreja evita o palanque que o próprio partido montou, o gesto diz algo. A CartaCapital registrou que a igreja evitou declarar apoio a Flávio.

Outros líderes evangélicos foram por outro caminho. O pastor Silas Malafaia declarou apoio a Flávio em culto na sua igreja, em maio. Em junho, afastou-se do candidato depois da divulgação de áudios com o banqueiro Daniel Vorcaro. Voltou em agosto, mas avisou que não organizará atos de campanha, conforme o Poder360.

O bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira, foi mais longe. No sábado (10), no ginásio público do Maracanãzinho, no Rio, conduziu a plateia a repetir 14 vezes “irmão vota em irmão”. O Jornal de Brasília descreveu a cena como um “pedido simulado de voto”. Para o fiel, ficou difícil separar a festa da igreja do comício.

O que o registro mostra sobre a Universal

A Universal já apareceu perto do universo bolsonarista por outro caminho. Em dezembro de 2025, o The Intercept Brasil revelou que o dono da produtora do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, comanda organizações não governamentais (ONGs) ligadas a evangélicos. Uma delas recebeu R$ 1,08 milhão em emendas de vereadores de São Paulo. O dinheiro serviu a um evento de jovens da Universal.

Outra ONG do mesmo empresário tem um contrato de R$ 108 milhões de Wi-Fi com a prefeitura paulistana. O Intercept não mostrou dinheiro de igreja indo para o filme. Mas o Dark Horse é o centro do único inquérito criminal aberto contra Flávio.

Foi para esse filme que o senador buscou dinheiro de Vorcaro, dono do Banco Master. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriu o inquérito em julho, a pedido da Polícia Federal (PF), segundo a Agência Brasil. A suspeita é de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio é investigado, não réu.

Nos registros oficiais, não há igreja financiando Flávio. Segundo o Poder360, a campanha arrecadou R$ 61,7 milhões até 1º de outubro. Desse total, R$ 55,2 milhões, ou 89%, saíram do fundo partidário do PL. A lista dos maiores doadores não traz pastores nem denominações.

O peso da fé, portanto, não está no caixa. Está nos púlpitos, nos cultos e nos partidos que orbitam as igrejas. É nesse terreno que a neutralidade da Universal faz diferença: o voto do fiel não vem embalado pelo altar.

O apoio evangélico, aliás, já mostrou que não é garantido. Entre maio e junho, o índice de Flávio nesse eleitorado caiu de 61% para 52%, segundo pesquisa Quaest relatada pela Agência Pública. Ainda é maioria, mas uma maioria que encolheu.

Para quem frequenta o culto, a diferença entre igreja e partido não é detalhe. O pastor fala em nome da fé; o partido, em nome de um projeto de poder. Quando os dois recados se separam, o fiel ganha espaço para decidir sozinho, com a própria consciência e a Bíblia na mão.

O que dizem a Universal e o Republicanos: a Igreja Universal comunicou aos pastores, em 14 de outubro, que é neutra no segundo turno, segundo a CartaCapital. O Republicanos confirmou apoio a Flávio Bolsonaro em 7 de outubro, conforme a CNN Brasil.

Os motivos da Universal não aparecem no registro, e nada obriga uma igreja a explicá-los. O fato, porém, fica registrado. Às vésperas do segundo turno, a igreja do partido aliado preferiu não emprestar o altar a Flávio. Para o fiel que vai às urnas no dia 25, esse silêncio também é uma mensagem.

Fontes