Comportamento

Pastores dizem que Flávio "não parece evangélico"

Pastores ouvidos pela Agência Pública citam carnaval, cigarro eletrônico e linguagem de Flávio, que se diz evangélico desde jovem e já se batizou quatro vezes.

Fachada de azulejos brancos do Templo Central da Assembleia de Deus em Fortaleza, com o nome da igreja em letras metálicas
O Templo Central da Assembleia de Deus em Fortaleza (CE), em março de 2015 (foto de arquivo).Foto: Porto Neto / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Flávio Bolsonaro se apresenta como evangélico desde a juventude. Mesmo assim, alguns pastores disseram à Agência Pública que ele “não parece evangélico”. Para justificar a impressão, citaram festas de carnaval, o uso de cigarro eletrônico e a linguagem do candidato. A crítica vem de dentro das igrejas, e não de adversários políticos.

A frase não é um juízo sobre a fé de Flávio, e esta revista não faz esse juízo. Ninguém pode medir o que vai no coração de outra pessoa. O que os pastores avaliam é a conduta pública, aquilo que qualquer fiel vê. E, nas igrejas, conduta conta.

O que pesa nos templos

Nas igrejas evangélicas, o testemunho é a vida que o fiel mostra fora do culto. Espera-se coerência entre o que se diz no púlpito e o que se faz na rua. É um critério antigo nas comunidades de fé, aplicado a membros e a líderes.

Em parte das igrejas pentecostais, como as Assembleias de Deus, a tradição dos “usos e costumes” orientou por décadas o modo de vestir, de falar e de se divertir. Hoje, muitas comunidades são mais flexíveis. A expectativa de uma vida discreta e coerente, porém, continua forte.

Os pastores ouvidos pela Agência Pública aplicaram a mesma régua ao candidato. Carnaval, cigarro eletrônico e o jeito de falar podem parecer detalhes para parte do eleitorado. Para esses pastores, porém, são sinais de distância dos costumes da igreja.

A trajetória religiosa de Flávio é longa. Ele foi criado na fé pela mãe e estudou em escola batista. Foi batizado quatro vezes: na juventude, na Tijuca; em 2016, no rio Jordão; em 2024, em Brasília, ao lado da esposa; e no início de 2026, de novo no Jordão. Alguns pastores veem nos batismos repetidos também um lado político, segundo a Agência Pública.

Fé no centro da campanha

A dúvida dos pastores pesa porque a campanha pôs a fé no centro. Em agosto, Flávio prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas.

Em 10 de outubro, no Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a repetir 14 vezes “irmão vota em irmão”. Flávio cantou no palco, segundo o Jornal de Brasília. Na sexta-feira (16), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou apagar seu post “Lula não feche minha igreja”, por falta de base factual, segundo a CNN Brasil.

Há também evangélicos que foram além da dúvida. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito declarou apoio ao presidente Lula, em agosto. O grupo ligou Flávio ao autoritarismo, segundo o Diario de Pernambuco.

Nada disso significa que os evangélicos abandonaram Flávio. Ele mantém apoios de peso. O pastor Silas Malafaia declarou apoio em maio, segundo o Metrópoles. O bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira, comandou o culto do Maracanãzinho.

O que mudou foi o tamanho da vantagem. Entre maio e junho, o apoio de Flávio entre os evangélicos caiu de 61% para 52%, segundo pesquisa Quaest relatada pela Agência Pública. Depois do áudio com o banqueiro Daniel Vorcaro, o bispo Rodovalho disse que os evangélicos davam a Flávio “o benefício da dúvida”, segundo o SBT News.

Benefício da dúvida, por definição, admite a dúvida. E é exatamente essa dúvida que os pastores ouvidos pela Agência Pública tornaram pública. Eles não falam como militantes de partido, mas como quem conhece os costumes da igreja. Por isso, a crítica deles alcança justamente o eleitor que a campanha mais quer conquistar.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato se apresenta como evangélico desde a juventude, criado na fé pela mãe e formado em escola batista, segundo a Agência Pública. A reportagem não localizou resposta pública dele às críticas desses pastores.

O segundo turno é no domingo, 25 de outubro. O voto evangélico segue decisivo, e a maioria desse eleitorado ainda está com Flávio. Mas a pergunta dos pastores fica no ar: um candidato que faz da fé a sua bandeira precisa mostrar, na conduta, a fé que anuncia no palanque.

Fontes