Opinião

Valores cristãos incluem a verdade

O Aos Fatos contou 43 falsidades de Flávio sobre Vorcaro, e o TSE mandou apagar seu post sobre igrejas. Para a direita cristã, a mentira não é detalhe.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Flávio Bolsonaro, de terno azul-claro, discursa ao microfone em sua bancada no plenário do Senado
O senador Flávio Bolsonaro discursa no plenário do Senado Federal, em Brasília, em 15 de abril de 2026.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Ao menos 43 vezes. Esse é o número de declarações falsas de Flávio Bolsonaro sobre o seu envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, segundo a agência de checagem Aos Fatos. O número não fala de política econômica nem de estratégia. Fala de algo que, para quem crê, vem antes de tudo: a verdade.

Escrevo como parte da direita. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também dizemos defender os valores cristãos. E o mandamento é claro: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”. Um movimento que se diz cristão não pode tratar a mentira como estratégia de campanha.

O registro das versões

O caso Dark Horse mostra o padrão. Em 13 de maio, de manhã, Flávio chamou de mentira a reportagem sobre o dinheiro que pediu a Vorcaro. À noite, confirmou que buscou “patrocínio privado” para um filme sobre o pai, segundo o Poder360. Entre a manhã e a noite, a verdade mudou de lado.

A Agência Lupa classificou como falsa a afirmação dele de que os detalhes do contrato e do fundo já tinham sido mostrados. Hoje, Flávio é investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). A suspeita é de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, segundo a Agência Brasil. Investigado não é culpado, mas versões contraditórias não ajudam ninguém a acreditar nele.

A mesma checagem da Lupa apontou falta de contexto em outra frase: a de que o filme não usou dinheiro da Lei Rouanet, a lei federal de incentivo à cultura. A produtora chegou a pedir R$ 8,59 milhões pela Rouanet e teve o pedido negado. Meia verdade também é uma forma de esconder.

Há quem diga que todo político mente um pouco, e talvez seja assim. Mas o cristão não mede a própria conduta pela média dos políticos. Mede pelo que aprendeu na igreja, em casa e na Bíblia. E ali a regra não muda conforme a pesquisa, nem conforme o adversário da vez.

Quando a mentira usa a fé

O mais grave para o leitor cristão está em outro lugar. Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Segundo a CNN Brasil, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.

O Bereia, coletivo evangélico de checagem, já havia classificado a alegação como falsa. Vale repetir: foram evangélicos que checaram e desmentiram uma frase dita em nome dos evangélicos. A fé, nesse caso, foi usada como isca.

O post não inventou o medo. Reaproveitou uma mentira antiga, como mostrou o Bereia. Quem a repete em nome da fé trata o fiel como alguém fácil de assustar.

Em 27 de setembro, Flávio acusou pessoas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalharem um boato sobre Nossa Senhora Aparecida. A CNBB respondeu no mesmo dia que a acusação não tinha fatos nem provas, segundo o Poder360. Acusar sem prova também é uma forma de faltar com a verdade.

A direita cristã sempre cobrou coerência de quem fala em nome de Deus. Essa cobrança não pode ter exceção para o nosso candidato. Se a regra vale para os adversários, vale também para Flávio. Do contrário, deixa de ser valor e vira apenas arma.

Há quem lembre que adversários também erram. É verdade, e a imprensa checa os dois lados. Mas a pergunta aqui é outra: que exemplo um candidato que pede o voto cristão dá ao país?

O que diz quem pensa diferente: Flávio sustenta que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o mandato de senador não deu nada ao banqueiro, segundo a CNN Brasil. Ele também atribui a diferença nas contas do caso a um contrato que não foi honrado.

Jesus disse que a verdade liberta. Uma campanha que precisa de tantas versões, correções e posts apagados não está livre: está presa às próprias contradições. No dia 25 de outubro, o eleitor cristão não precisa gostar de Lula. Precisa apenas lembrar que valores cristãos incluem a verdade, e que nenhum candidato está acima desse mandamento.

Fontes