Valores cristãos incluem a verdade
O Aos Fatos contou 43 falsidades de Flávio sobre Vorcaro, e o TSE mandou apagar seu post sobre igrejas. Para a direita cristã, a mentira não é detalhe.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Ao menos 43 vezes. Esse é o número de declarações falsas de Flávio Bolsonaro sobre o seu envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, segundo a agência de checagem Aos Fatos. O número não fala de política econômica nem de estratégia. Fala de algo que, para quem crê, vem antes de tudo: a verdade.
Escrevo como parte da direita. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também dizemos defender os valores cristãos. E o mandamento é claro: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”. Um movimento que se diz cristão não pode tratar a mentira como estratégia de campanha.
O registro das versões
O caso Dark Horse mostra o padrão. Em 13 de maio, de manhã, Flávio chamou de mentira a reportagem sobre o dinheiro que pediu a Vorcaro. À noite, confirmou que buscou “patrocínio privado” para um filme sobre o pai, segundo o Poder360. Entre a manhã e a noite, a verdade mudou de lado.
A Agência Lupa classificou como falsa a afirmação dele de que os detalhes do contrato e do fundo já tinham sido mostrados. Hoje, Flávio é investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). A suspeita é de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, segundo a Agência Brasil. Investigado não é culpado, mas versões contraditórias não ajudam ninguém a acreditar nele.
A mesma checagem da Lupa apontou falta de contexto em outra frase: a de que o filme não usou dinheiro da Lei Rouanet, a lei federal de incentivo à cultura. A produtora chegou a pedir R$ 8,59 milhões pela Rouanet e teve o pedido negado. Meia verdade também é uma forma de esconder.
Há quem diga que todo político mente um pouco, e talvez seja assim. Mas o cristão não mede a própria conduta pela média dos políticos. Mede pelo que aprendeu na igreja, em casa e na Bíblia. E ali a regra não muda conforme a pesquisa, nem conforme o adversário da vez.
Quando a mentira usa a fé
O mais grave para o leitor cristão está em outro lugar. Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Segundo a CNN Brasil, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.
O Bereia, coletivo evangélico de checagem, já havia classificado a alegação como falsa. Vale repetir: foram evangélicos que checaram e desmentiram uma frase dita em nome dos evangélicos. A fé, nesse caso, foi usada como isca.
O post não inventou o medo. Reaproveitou uma mentira antiga, como mostrou o Bereia. Quem a repete em nome da fé trata o fiel como alguém fácil de assustar.
Em 27 de setembro, Flávio acusou pessoas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalharem um boato sobre Nossa Senhora Aparecida. A CNBB respondeu no mesmo dia que a acusação não tinha fatos nem provas, segundo o Poder360. Acusar sem prova também é uma forma de faltar com a verdade.
A direita cristã sempre cobrou coerência de quem fala em nome de Deus. Essa cobrança não pode ter exceção para o nosso candidato. Se a regra vale para os adversários, vale também para Flávio. Do contrário, deixa de ser valor e vira apenas arma.
Há quem lembre que adversários também erram. É verdade, e a imprensa checa os dois lados. Mas a pergunta aqui é outra: que exemplo um candidato que pede o voto cristão dá ao país?
O que diz quem pensa diferente: Flávio sustenta que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o mandato de senador não deu nada ao banqueiro, segundo a CNN Brasil. Ele também atribui a diferença nas contas do caso a um contrato que não foi honrado.
Jesus disse que a verdade liberta. Uma campanha que precisa de tantas versões, correções e posts apagados não está livre: está presa às próprias contradições. No dia 25 de outubro, o eleitor cristão não precisa gostar de Lula. Precisa apenas lembrar que valores cristãos incluem a verdade, e que nenhum candidato está acima desse mandamento.
Fontes
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional — Agência Lupa
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Estela Aranha manda Flávio apagar post que sugere que Lula fecharia igrejas — CNN Brasil
- “Lula, não feche minha igreja”: mentira antiga volta às redes — Bereia
- Bispos católicos criticam fala de Flávio sobre fake news de padroeira — Poder360
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil



