Opinião

Na reta final, Flávio transforma a eleição em batalha de fé

Da Marcha para Jesus ao Maracanãzinho, o candidato trata a eleição como batalha de fé; o TSE mandou apagar, em três horas, um post que sugeria que Lula fecharia igrejas.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Flávio Bolsonaro discursa na tribuna do plenário da Câmara dos Deputados, cercado por parlamentares de terno
O senador Flávio Bolsonaro discursa na tribuna durante sessão do Congresso Nacional, em Brasília, em 21 de maio de 2026.Foto: Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 4 de junho, na Marcha para Jesus, em São Paulo, Flávio Bolsonaro disse que o Brasil enfrenta uma “guerra espiritual”. No sábado (10), repetiu a expressão no culto de centenário da Assembleia de Deus de Madureira, no Maracanãzinho, no Rio, segundo a Gazeta do Povo.

Na reta final, a frase deixou de ser metáfora de culto e virou a moldura da campanha. Este texto junta os episódios recentes e mostra o que eles têm em comum.

A expressão vem junto com outras promessas. Em agosto, em vídeo, Flávio disse que, “quando eu for presidente”, um dos primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, segundo O Tempo. Segundo o Estado de Minas, o reverendo Leonardo Carvalho classificou a promessa como inconstitucional e teologicamente equivocada.

Um dicionário de convocações

No Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a repetir 14 vezes “irmão vota em irmão”, segundo o Jornal de Brasília e o ICL Notícias. Depois, Flávio disse que quem pedia voto não era o bispo, mas a igreja. A frase coloca a instituição inteira, com seus fiéis, a serviço de uma candidatura.

Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar em três horas o post “Lula não feche minha igreja”. A ação foi apresentada pela coligação de Lula, segundo a CNN Brasil. Para a ministra, o post apresentava aos eleitores uma suposta ameaça à liberdade religiosa, sem fatos que a sustentassem. A reportagem não localizou manifestação de Flávio sobre a decisão nas fontes consultadas.

O que a guerra esconde

Linguagem de guerra dispensa explicações. Em uma batalha, ninguém pergunta ao comandante sobre as contas. A Carta aos Efésios, atribuída ao apóstolo Paulo, diz, na tradução Almeida Revista e Atualizada, que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne”. O texto mira forças espirituais, não adversários eleitorais.

Enquanto fala em guerra espiritual, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), no caso Dark Horse, filme sobre o pai. A apuração trata de suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção; ele é investigado, não réu, e nega irregularidades. Segundo o Poder360, Flávio negociou com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, o financiamento do filme. Em áudio, pediu US$ 24 milhões em 2025, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época.

Quando o assunto é a batalha espiritual, o candidato fala com fervor. Quando o assunto é dinheiro, a conversa muda de rumo. Em levantamento de 24 de setembro, o site de checagem Aos Fatos contou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio sobre o vínculo com Vorcaro. Segundo o site, ele se recusou a admitir esse vínculo por cerca de seis meses.

Custos e números

Segundo o ICL Notícias, o Movimento Brasil Laico (MBLaico) acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral. A entidade pede que o Ministério Público Eleitoral avalie uma ação que pode levar à cassação do registro ou do diploma de Flávio. Também pede que a Receita Federal apure a possível suspensão da imunidade tributária da denominação, benefício que impede a cobrança de certos impostos sobre a igreja. O quadro abaixo reúne quatro números desses episódios.

Fé, dinheiro e checagem: quatro números da reta final Valores e contagens publicados pela imprensa, por data do episódio ou da publicação, em 2026

Data (2026) O que o número mede Número
11/9 Valor que o Poder360 estima ter sido pago pelo financiamento do filme Dark Horse R$ 60 milhões
24/9 Declarações enganosas de Flávio sobre o vínculo com Vorcaro, segundo o Aos Fatos 43
10/10 Repetições de “irmão vota em irmão” conduzidas pelo bispo no Maracanãzinho 14
16/10 Prazo dado pelo TSE para remover o post “Lula não feche minha igreja” 3 horas

Fonte: Poder360 (11/9/2026), Aos Fatos (24/9/2026), Jornal de Brasília e ICL Notícias (10/10/2026), CNN Brasil (16/10/2026). Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele sustenta que o Brasil vive uma “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil e a Gazeta do Povo. No culto do Maracanãzinho, disse que o pedido de voto veio da igreja, e não do bispo, conforme o Jornal de Brasília. Sobre o inquérito do Dark Horse, nega irregularidades, segundo o Poder360.

O que isso significa

Os episódios têm um fio comum: a fé vira identidade de campanha, e o voto vira ato de batalha. As frases formam um dicionário coerente: há uma guerra, o inimigo quer fechar templos, o Brasil precisa ser de Cristo e irmão vota em irmão. Nenhuma delas é proposta de governo. Todas são convocações.

Seguem em aberto o inquérito, que corre sob sigilo, e o pedido do MBLaico, sem decisão pública nas fontes consultadas. No dia 25 de outubro, data do segundo turno marcada pelo TSE, o eleitor decide com as informações que tiver. A escolha é dele.

Como fizemos: Reunimos reportagens de CNN Brasil, Gazeta do Povo, O Tempo, Estado de Minas, Jornal de Brasília, ICL Notícias, Aos Fatos e Poder360, publicadas entre junho e outubro de 2026, e acessamos todas em 20 de outubro de 2026. Conferimos datas, números e falas nesses textos, e a passagem bíblica na versão Almeida Revista e Atualizada, no site Bíblia Online. A decisão do TSE foi lida na reportagem da CNN Brasil, não no documento oficial. A tabela reúne valores e contagens já publicados, sem cálculo próprio; as contagens do Aos Fatos e a estimativa do Poder360 não foram refeitas. As falas de Flávio variam entre veículos: por isso o trecho sobre o bispo está em paráfrase, e a checagem não mede o efeito desses episódios sobre o voto.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que o Aos Fatos contou 43 declarações falsas; o correto é 43 declarações enganosas. Também dizia que o MBLaico pediu o cancelamento da candidatura e a revisão da imunidade tributária; o pedido é para que o Ministério Público Eleitoral avalie uma ação que pode levar à cassação do registro ou do diploma, e para que a Receita Federal apure a possível suspensão da imunidade.

Fontes