Opinião

Quatro batismos e nenhuma explicação sobre Vorcaro

Flávio já se batizou quatro vezes, mas não esclarece o Dark Horse: segundo a PF, saíram mais de US$ 12 milhões e só US$ 2,8 milhões têm retorno registrado.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Flávio Bolsonaro, de terno e gravata, fala a jornalistas cercado por microfones de emissoras
O senador Flávio Bolsonaro dá entrevista a jornalistas no Senado, em Brasília, em 30 de abril de 2026.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Flávio Bolsonaro já foi batizado quatro vezes, segundo a Agência Pública. Duas delas no rio Jordão, a última no início de 2026. Para o cristão, o batismo é o momento de deixar a vida velha nas águas e sair delas em verdade. É por isso que a pergunta deste texto é incômoda: onde está a verdade sobre Daniel Vorcaro?

Escrevo do lado direito. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos a desconfiar de quem fala muito em Deus e pouco em contas. A fé não é álibi. E o caso Dark Horse é exatamente o tipo de história que a direita cristã cobraria de qualquer adversário.

O que já se sabe

Segundo o The Intercept Brasil, Vorcaro, dono do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. A soma equivalia a cerca de R$ 134 milhões. Ao menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Depois, o rastreamento chegou a US$ 12,3 milhões.

O dinheiro foi para a Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. O dinheiro saiu do Brasil para os Estados Unidos, longe dos olhos de quem acompanha a política daqui.

Há também as mensagens que vieram a público no caso. Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou de Vorcaro pagamentos atrasados. Em 16 de novembro, véspera da prisão do banqueiro, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. A palavra “irmão”, tão cara às igrejas, foi parar numa mensagem a um banqueiro que seria preso no dia seguinte.

Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriu inquérito sobre o caso. Atendeu a pedido da Polícia Federal (PF), com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), segundo a Agência Brasil. A suspeita é de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio é investigado, e não réu.

Versões não são explicação

Versões, Flávio deu várias. Em 13 de maio, de manhã, chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ter buscado “patrocínio privado” para um filme privado, segundo o Poder360. A Agência Lupa classificou como falsa sua afirmação de que os detalhes do contrato e do fundo já tinham sido mostrados.

O Aos Fatos contou ao menos 43 declarações falsas dele sobre o envolvimento com Vorcaro. Quarenta e três. Não é um deslize. É um padrão.

E a conta não fecha. Segundo a PF, saíram do Brasil mais de US$ 12 milhões, mas só US$ 2,8 milhões têm retorno registrado. A polícia chama a diferença de “severa”, segundo o ConJur.

Em 16 de outubro, a PF pediu mais 90 dias de investigação. Ainda não há decisão. Enquanto isso, o eleitor vai às urnas sem saber onde foram parar os outros milhões.

A versão mais recente de Flávio é de 16 de outubro. Disse que o dinheiro era privado e lícito. Afirmou que ser senador não deu nada a Vorcaro. E atribuiu a diferença a um contrato que não foi cumprido, segundo a CNN Brasil.

É uma versão, mas não mostra o contrato nem os comprovantes. Se o contrato não foi cumprido, ele existe. E, se existe, pode ser mostrado ao eleitor.

Na tradição cristã, a confissão vem antes do perdão. Ninguém exige de Flávio uma confissão de culpa. Ele tem direito à defesa, e o inquérito ainda corre. O que se pode exigir é transparência: os papéis, as datas e o destino de cada dólar.

O que diz quem pensa diferente: Flávio afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito, que o mandato de senador não deu nada ao banqueiro e que a diferença nas contas vem de um contrato não honrado, segundo a CNN Brasil. Ele nega ter oferecido contrapartida ou usado dinheiro público, conforme o Poder360.

Batismo não é carimbo de idoneidade. É um compromisso com a verdade diante da igreja. Quem foi às águas quatro vezes pode, com muito menos esforço, abrir as contas do Dark Horse antes de 25 de outubro. Até lá, a direita cristã tem o direito de não entregar o seu voto a quem prefere a versão à prova.

Fontes