Fé não é palanque
Um ginásio público, 14 gritos de 'irmão vota em irmão' e um post apagado pelo TSE: a campanha de Flávio trata o altar como palco eleitoral.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

No sábado, 10 de outubro, um culto de centenário virou comício. No ginásio público do Maracanãzinho, no Rio, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a gritar 14 vezes “irmão vota em irmão”. Flávio Bolsonaro cantou no palco. Depois, explicou que quem pedia voto não era o bispo, mas “a igreja”, segundo o Jornal de Brasília.
Escrevo como alguém da direita. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também defendemos a fé. E é justamente por isso que não aceitamos ver o altar transformado em palanque. A frase de Flávio deveria incomodar todo cristão conservador.
A igreja não é comitê
A Igreja é o corpo de Cristo, não um comitê eleitoral. Quando um candidato diz que “a igreja” pede voto, ele coloca na conta da comunidade inteira uma escolha que é de cada consciência. O fiel que discorda passa a parecer traidor da própria fé.
O roteiro não começou no Maracanãzinho. Em maio, o pastor Silas Malafaia declarou apoio a Flávio durante um culto na sua igreja, segundo o Estado de Minas. O Movimento Brasil Laico (MBLaico) levou o caso ao Ministério Público (MP). Alegou abuso de poder religioso e doação de fonte vedada, já que igrejas não podem financiar campanhas, segundo a Agência Pública.
Depois do culto no Maracanãzinho, o mesmo grupo pediu o cancelamento da candidatura e a revisão da imunidade tributária da igreja, segundo o ICL Notícias. Imunidade é a regra da Constituição que livra os templos de impostos. Nenhuma das queixas tem decisão. Mas quem paga o risco não é o candidato: é a igreja que emprestou o altar.
O dízimo também já entrou nessa conta. Em 2024, a associação de Malafaia, mantida por dízimos e ofertas, assumiu o custeio de um ato de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. Só recuou quando o caso virou crítica nas redes, segundo o Metrópoles. O pastor então disse que pagaria o trio elétrico de R$ 55 mil do próprio bolso.
Fé como arma
A campanha de Flávio foi além do púlpito. Em agosto, ele prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas. Não se trata de um ateu reclamando: é um pastor.
Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Segundo a CNN Brasil, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.
Quem usa o medo de perder a igreja para ganhar voto não protege a igreja. Usa a igreja. E nós, que acreditamos que a fé é coisa séria, temos o dever de dizer isso em voz alta, mesmo quando o candidato é da nossa trincheira.
Os Evangelhos contam que Jesus expulsou os vendilhões do templo. Disse que a sua casa seria chamada “casa de oração”, segundo Mateus. O templo não era lugar de negócio. Também não deveria ser lugar de campanha.
É preciso reconhecer um fato a favor de Flávio. As igrejas não financiam sua campanha. Segundo o Poder360, 89% do dinheiro arrecadado até 1º de outubro veio do fundo partidário do Partido Liberal (PL).
O problema, portanto, não está no caixa. Está no púlpito, onde a palavra do pastor tem um peso que nenhum cabo eleitoral alcança.
O que diz quem pensa diferente: os apoiadores de Flávio lembram que líderes religiosos têm o direito de expressar preferências políticas e que a campanha não recebe dinheiro de igrejas, como mostra o Poder360. O próprio candidato afirmou, no Maracanãzinho, que quem pedia voto “era a igreja”, segundo o Jornal de Brasília.
Ninguém precisa gostar de Lula para recusar esse método. Basta lembrar o que a direita cristã sempre disse defender: uma igreja livre do governo e um governo que não manda na igreja. No dia 25 de outubro, o voto é de cada fiel, diante de Deus e da própria consciência. Não entregue o altar a quem o usa como palco.
Fontes
- Flávio Bolsonaro canta em culto e recebe pedido simulado de voto — Jornal de Brasília
- Entidade pede investigação de Flávio Bolsonaro — ICL Notícias
- Procurador decidirá se entra com ação contra Flávio e Malafaia — Agência Pública
- Redes fazem Malafaia recuar de usar dízimo ao pagar trio de Bolsonaro — Metrópoles
- Flávio diz que vai decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo — O Tempo
- Flávio promete declarar Brasil a Jesus, e pastor critica — Estado de Minas
- Estela Aranha manda Flávio apagar post que sugere que Lula fecharia igrejas — CNN Brasil
- Saiba quais são os principais doadores de Lula e Flávio — Poder360



