Opinião

Fé não é palanque

Um ginásio público, 14 gritos de 'irmão vota em irmão' e um post apagado pelo TSE: a campanha de Flávio trata o altar como palco eleitoral.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Bispo de terno estende o braço durante culto, enquanto Jair Bolsonaro e outras autoridades ouvem de pé, ao fundo
O bispo Oídes José do Carmo, presidente da Conemad-GO, fala em culto do 1º Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos, com Jair Bolsonaro ao fundo, em Goiânia, em 28 de agosto de 2021 (foto de arquivo).Foto: Alan Santos / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No sábado, 10 de outubro, um culto de centenário virou comício. No ginásio público do Maracanãzinho, no Rio, o bispo Samuel Ferreira conduziu a plateia a gritar 14 vezes “irmão vota em irmão”. Flávio Bolsonaro cantou no palco. Depois, explicou que quem pedia voto não era o bispo, mas “a igreja”, segundo o Jornal de Brasília.

Escrevo como alguém da direita. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, também defendemos a fé. E é justamente por isso que não aceitamos ver o altar transformado em palanque. A frase de Flávio deveria incomodar todo cristão conservador.

A igreja não é comitê

A Igreja é o corpo de Cristo, não um comitê eleitoral. Quando um candidato diz que “a igreja” pede voto, ele coloca na conta da comunidade inteira uma escolha que é de cada consciência. O fiel que discorda passa a parecer traidor da própria fé.

O roteiro não começou no Maracanãzinho. Em maio, o pastor Silas Malafaia declarou apoio a Flávio durante um culto na sua igreja, segundo o Estado de Minas. O Movimento Brasil Laico (MBLaico) levou o caso ao Ministério Público (MP). Alegou abuso de poder religioso e doação de fonte vedada, já que igrejas não podem financiar campanhas, segundo a Agência Pública.

Depois do culto no Maracanãzinho, o mesmo grupo pediu o cancelamento da candidatura e a revisão da imunidade tributária da igreja, segundo o ICL Notícias. Imunidade é a regra da Constituição que livra os templos de impostos. Nenhuma das queixas tem decisão. Mas quem paga o risco não é o candidato: é a igreja que emprestou o altar.

O dízimo também já entrou nessa conta. Em 2024, a associação de Malafaia, mantida por dízimos e ofertas, assumiu o custeio de um ato de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. Só recuou quando o caso virou crítica nas redes, segundo o Metrópoles. O pastor então disse que pagaria o trio elétrico de R$ 55 mil do próprio bolso.

Fé como arma

A campanha de Flávio foi além do púlpito. Em agosto, ele prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas. Não se trata de um ateu reclamando: é um pastor.

Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio apagar o post “Lula não feche minha igreja”. Segundo a CNN Brasil, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.

Quem usa o medo de perder a igreja para ganhar voto não protege a igreja. Usa a igreja. E nós, que acreditamos que a fé é coisa séria, temos o dever de dizer isso em voz alta, mesmo quando o candidato é da nossa trincheira.

Os Evangelhos contam que Jesus expulsou os vendilhões do templo. Disse que a sua casa seria chamada “casa de oração”, segundo Mateus. O templo não era lugar de negócio. Também não deveria ser lugar de campanha.

É preciso reconhecer um fato a favor de Flávio. As igrejas não financiam sua campanha. Segundo o Poder360, 89% do dinheiro arrecadado até 1º de outubro veio do fundo partidário do Partido Liberal (PL).

O problema, portanto, não está no caixa. Está no púlpito, onde a palavra do pastor tem um peso que nenhum cabo eleitoral alcança.

O que diz quem pensa diferente: os apoiadores de Flávio lembram que líderes religiosos têm o direito de expressar preferências políticas e que a campanha não recebe dinheiro de igrejas, como mostra o Poder360. O próprio candidato afirmou, no Maracanãzinho, que quem pedia voto “era a igreja”, segundo o Jornal de Brasília.

Ninguém precisa gostar de Lula para recusar esse método. Basta lembrar o que a direita cristã sempre disse defender: uma igreja livre do governo e um governo que não manda na igreja. No dia 25 de outubro, o voto é de cada fiel, diante de Deus e da própria consciência. Não entregue o altar a quem o usa como palco.

Fontes