Opinião

A solidão dos idosos é um problema de todos nós

O Brasil tem 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais e a OMS liga a solidão a 871 mil mortes por ano; visitar e acolher é dever de todos.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Ilustração abstrata de uma janela em arco, contornada de dourado, aberta para um céu estrelado azul-noite (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

O Censo 2022 contou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Eles são 15,6% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2010, eram 10,8%. Em 12 anos, esse grupo cresceu 56%.

O país envelhece depressa, e com ele cresce um problema discreto: a solidão. Em junho de 2025, a Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório sobre o tema. Segundo a OMS, 1 em cada 6 pessoas no mundo sente solidão. A entidade associa a solidão a mais de 871 mil mortes por ano, cerca de 100 por hora.

Isolamento na velhice

O isolamento social, que é ter poucos contatos ou ver as pessoas raramente, pesa mais na velhice. Segundo a OMS, ele pode atingir até 1 em cada 3 idosos. A organização liga solidão e isolamento a doenças do coração, diabetes tipo 2, depressão e ansiedade.

A lei brasileira não deixa dúvida sobre quem deve cuidar. O artigo 230 da Constituição diz que “a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas”.

O Estatuto da Pessoa Idosa, a Lei 10.741, de 2003, vai além. Seu artigo 3º põe a “convivência familiar e comunitária” entre os direitos que família, comunidade, sociedade e poder público devem garantir. O mesmo artigo dá prioridade ao cuidado da pessoa idosa pela própria família, e não em asilos, salvo quando ela não tem família ou condições de se manter.

Gestos que cabem na semana

A solidão não se resolve só com remédio ou decreto. Ela cede diante de gestos simples.

Uma ligação no meio da semana. O almoço de domingo na casa da avó. A visita ao vizinho que mora sozinho. Uma carona até a missa, o culto ou o centro.

As comunidades de fé têm aqui uma vocação especial. Paróquias, igrejas evangélicas, centros espíritas, terreiros e sinagogas já reúnem pessoas de todas as idades. Muitas mantêm grupos de visita a doentes e idosos. Essa rede pode crescer com pouco: uma lista de quem mora só, uma escala de visitas, um telefonema depois da celebração.

A tradição bíblica manda honrar pai e mãe. Muitas outras tradições também veem os mais velhos como guardiões da memória. Quem visita um idoso não faz favor. Cumpre um dever e recebe, em troca, histórias que nenhum livro guarda.

O que dizem os que discordam: Muitas famílias já vivem sobrecarregadas, com jornadas longas e filhos pequenos. Para essa visão, a solidão dos idosos não se resolve com boa vontade. Exige política pública, com centros de convivência, cuidadores e serviços de saúde.

A objeção tem razão em um ponto: o Estado não pode jogar esse dever só nas costas das famílias. O próprio Estatuto põe o poder público entre os responsáveis.

Mas nenhuma política substitui a presença de quem ama. O Brasil terá cada vez mais idosos. Cabe a cada um decidir se eles vão envelhecer cercados ou esquecidos.

Fontes