Opinião

A família continua sendo a primeira escola dos filhos

A Constituição diz que educar é dever do Estado e da família; ler em casa e conversar com o professor pesam mais do que qualquer reforma.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Ilustração abstrata de uma janela em arco, contornada de dourado, aberta para um céu estrelado azul-noite (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

O artigo 205 da Constituição de 1988 começa assim: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. A frase põe Estado e família lado a lado. Os dois dividem a mesma tarefa.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, repete a ideia e inverte a ordem: a educação é “dever da família e do Estado”. O artigo 229 da Constituição completa o quadro. “Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores”, diz o texto.

O que a reforma não alcança

A cada poucos anos, o país discute uma nova reforma do ensino. Mudam currículos, provas e programas. Esses debates importam. Mas nenhuma reforma entra em casa à noite para perguntar como foi a aula.

Os sinais de alerta estão aí. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou em 2024 que 53% dos brasileiros eram não leitores. Ou seja, não tinham lido nem parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. Foi a primeira vez que os não leitores superaram os leitores na série da pesquisa.

Uma criança que nunca vê um adulto lendo dificilmente vai achar a leitura natural. O exemplo de casa ensina antes de qualquer professor. E ensina com mais força.

Gestos simples, efeito longo

A participação da família não exige diploma nem dinheiro. Exige presença.

Ler uma história antes de dormir, mesmo curta. Perguntar o que a criança aprendeu e ouvir a resposta com atenção. Ter um horário e um canto para a lição de casa. Ir à reunião de pais e conhecer o professor pelo nome.

A lei reconhece esse papel. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz que é direito dos pais “ter ciência do processo pedagógico” e “participar da definição das propostas educacionais”. A LDB manda a escola “articular-se com as famílias e a comunidade”. A porta está aberta dos dois lados.

A família também ensina o que nenhum currículo cobre por inteiro: honestidade, respeito, gratidão, o valor do esforço. Em muitos lares, é em casa que se aprendem as primeiras orações e as tradições da fé. A escola reforça esses valores, mas raramente é ela quem os planta.

O que dizem os que discordam: Muitas famílias não têm tempo, escolaridade ou dinheiro para acompanhar os estudos dos filhos. Para essa visão, cobrar mais dos pais aprofunda as desigualdades. Cabe à escola pública compensar o que falta em casa.

A objeção é séria. A escola deve, sim, compensar desigualdades, e a Constituição põe o Estado entre os responsáveis.

Mas isso não dispensa a família. Ao contrário, pede escolas que acolham pais com pouco estudo e horários difíceis. Uma pergunta no jantar e um livro da biblioteca cabem em quase todas as casas. É nelas que a educação de um filho começa e se sustenta.

Fontes