A mesa do jantar em família merece ser defendida
O Guia Alimentar do Ministério da Saúde recomenda comer em companhia, e a mesa compartilhada também ensina conversa, modos, fé e gratidão.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Em novembro de 2014, o Ministério da Saúde lançou a segunda edição do Guia Alimentar para a População Brasileira. Entre os dez passos do documento, um diz: “Comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia”. Parece uma frase de manual de saúde. Mas ela descreve algo que as famílias brasileiras sempre souberam.
O guia dedica um capítulo inteiro ao “ato de comer e a comensalidade”, palavra técnica para o hábito de comer junto. Em apresentação oficial do documento, a área de alimentação e nutrição do ministério resume a orientação. Prefira comer “com familiares, amigos ou colegas de trabalho ou escola”. E procure dividir também as tarefas que vêm antes e depois da refeição.
Mais que nutrição
O primeiro princípio do guia é que alimentação “é mais que ingestão de nutrientes”. Segundo o material do ministério, o modo de comer influencia o aproveitamento dos alimentos e o prazer da refeição. A comida aparece ali como parte da cultura e da vida social.
A mesa compartilhada confirma isso todos os dias. É ali que a criança aprende a esperar a vez de falar, a passar a travessa, a pedir por favor. É ali que se contam as histórias dos avós e que as receitas passam de uma geração para outra.
É também ali que muitas tradições religiosas guardam um gesto antigo: a oração à mesa. Cristãos dão graças pelo pão de cada dia. Judeus recitam bênçãos sobre o pão e o vinho, sobretudo no jantar do Shabat, o dia de descanso semanal.
Muçulmanos costumam começar a refeição invocando o nome de Deus. Para quem não tem fé, a mesa ainda pode ser lugar de gratidão a quem plantou, cozinhou e serviu.
O inimigo é a pressa
O que ameaça esse hábito não é uma lei nem uma ideologia. É a soma de pequenas pressas: o celular sobre a toalha, a televisão ligada, cada um comendo em um horário. O próprio guia pede que se coma devagar, “sem se envolver em outra atividade”.
Defender a mesa não exige perfeição. Não precisa ser todo dia, nem precisa de comida cara. Arroz, feijão e quinze minutos de conversa já bastam. Uma família que se reúne ao menos no domingo já está fazendo muito.
Algumas medidas simples ajudam. Combinar um horário fixo para o jantar. Deixar os celulares fora da mesa.
Pedir às crianças que ponham os pratos e ajudem com a louça, como sugere o guia. Fazer uma oração, ou um minuto de silêncio, antes de começar.
O que dizem os que discordam: Para muitas famílias, jantar junto é luxo de quem tem tempo. Jornadas longas, turnos noturnos e horas no transporte desencontram pais e filhos. Por essa visão, cobrar a mesa em família pode culpar quem já se esforça.
A objeção é justa, e por isso a defesa da mesa não deve virar cobrança. Mas ela pode orientar escolhas das famílias, das escolas e de quem organiza o trabalho. Proteger um horário para comer junto é proteger o lugar onde a família ainda se encontra. Poucos lugares merecem tanto ser defendidos.


