Liberdade religiosa

TSE manda apagar o post "Lula não feche minha igreja"

A ministra Estela Aranha deu três horas para Flávio remover a publicação, que sugeria ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.

Ministros de toga, em pé, atrás da bancada de madeira do plenário do Tribunal Superior Eleitoral, com a bandeira do Brasil ao fundo
Ministros no plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, durante a posse de Estela Aranha e Floriano Marques, em 5 de agosto de 2025.Foto: Luiz Roberto / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou Flávio Bolsonaro apagar o post “Lula não feche minha igreja”. O prazo foi de três horas, segundo a CNN Brasil. Para a ministra, a publicação sugeria uma ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.

A frase não é nova. O Bereia, coletivo evangélico de checagem de informações, já havia classificado a alegação como falsa. Para o grupo, é uma mentira antiga que voltou a circular nas redes. Agora, chegou ao perfil de um candidato a presidente do Partido Liberal (PL).

O que a Justiça Eleitoral analisou

O TSE é o tribunal que organiza as eleições e julga o que pode ou não circular na propaganda. Ele não decide se alguém tem razão em uma disputa política. Decide se uma peça de campanha se apoia em fatos ou espalha desinformação.

No caso do post, a conclusão foi clara. Não há fato que mostre um plano de fechar igrejas. Sem esse fato, a frase funciona apenas como alarme. E alarme falso sobre fé tem um alvo preciso: o fiel que teme perder o lugar onde reza.

A liberdade religiosa está protegida pela Constituição de 1988. O texto garante a liberdade de crença e protege os locais de culto. Nenhum presidente pode fechar igrejas por vontade própria. Essa é justamente a garantia que o post apresentava como ameaçada.

Não foi a primeira vez

A decisão de Estela Aranha veio poucos dias depois de outra. Em 8 de outubro, o plenário do TSE mandou retirar, por unanimidade, três publicações de Flávio no X. Uma usava inteligência artificial para retratar Lula sem aviso ao público. As outras duas ligavam Lula ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) sem base em fatos.

O tribunal aplicou a mesma régua ao outro lado. Em 15 de outubro, o TSE manteve a remoção de uma publicação que associava o próprio Flávio ao CV, também por falta de base factual. O PL afirma que o inquérito ligado ao caso foi arquivado em 2022. A regra, portanto, vale para os dois candidatos.

A repetição, no entanto, mostra um padrão na campanha de Flávio. Quando o assunto é fé, o discurso vai além da proposta e chega ao medo. Em agosto, ele prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Na Marcha para Jesus, em junho, e no culto do Maracanãzinho, em outubro, falou em “guerra espiritual”, segundo a CNN Brasil e a Gazeta do Povo.

O post apagado completa esse vocabulário. Se há uma guerra espiritual, o adversário vira inimigo da fé. E, se esse inimigo fecharia igrejas, o voto passa a ser vendido como dever de fé.

A Justiça Eleitoral não entrou nesse debate teológico. Apenas registrou que a premissa do post não tinha prova. E uma campanha que fala em nome de Deus deveria ser a primeira a zelar pela verdade do que publica.

Para o leitor que frequenta uma igreja, a decisão tem um significado prático. A mentira sobre fechamento de templos, como mostra o Bereia, não nasceu nesta campanha. Ela explora um medo real e legítimo: o de perder a liberdade de culto. Por isso, o alarme funciona tão bem em tempo de campanha.

Quem cai nesse alarme pode votar movido pelo medo, e não pela avaliação das propostas. Por isso o trabalho do Bereia importa. É um grupo de evangélicos checando o que se diz em nome dos evangélicos. A checagem mostra que defender a fé também passa por recusar a mentira contada em nome dela.

O que diz Flávio Bolsonaro: a reportagem não localizou manifestação pública do candidato sobre a ordem de Estela Aranha. Diante de decisões contrárias da Justiça, Flávio tem alegado perseguição política. Em 15 de outubro, o mesmo TSE manteve a remoção de um post que o ligava ao CV sem base em fatos.

Faltam oito dias para o segundo turno de 25 de outubro. A ordem do TSE não proíbe ninguém de falar de fé na campanha. Proíbe usar a fé como espantalho, sem fato que sustente a acusação. Para quem vota com a Bíblia ao lado, a lição é simples: a liberdade religiosa está na Constituição, e não nas mãos de um post.

Fontes