Denúncias contra religiões de matriz africana sobem mais de 40%
No primeiro semestre de 2026, o Disque 100 recebeu 270 denúncias contra religiões de matriz africana, alta de mais de 40% sobre 2025.

Entre janeiro e junho de 2026, o Disque 100 recebeu 270 denúncias envolvendo religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. No mesmo período de 2025, foram 192. O aumento foi superior a 40%, segundo dados do canal citados pelo A Crítica.
O Disque 100 é o canal gratuito do governo federal para denúncias de violações de direitos humanos. Ele funciona 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados.
Em 2 de outubro, o Jornal Grande Bahia relatou que a intolerância religiosa entrou no debate das eleições de 2026. Terreiros, que são as casas de culto dessas religiões, falam em violência e ameaças.
O recorte do Disque 100 vai só até junho, antes da reta final da campanha. Por isso, os números não dizem se a eleição provocou o aumento.
Uma pesquisa com líderes de terreiros mostra o problema em mais detalhe. O levantamento Respeite o meu terreiro, da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), ouviu 511 terreiros. Foi divulgado em dezembro de 2025, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
Entre os terreiros pesquisados, 80% relataram racismo religioso. Outros 76% disseram ter sofrido alguma forma de violência. Para 74%, houve ameaças, depredação ou destruição. Já 52% relataram assédio ou racismo religioso na internet.
Esses números são relatos dos próprios líderes. Não são uma contagem oficial de ocorrências.
No Ceará, a ialorixá (líder religiosa) Mirela, do Ilê Axé Oxum Omolú, em Pindoretama, descreve medo de invasões, vandalismo e ameaças. Ela usa a expressão “fascismo religioso” para definir a perseguição que vê, segundo o Jornal Grande Bahia.
Num recorte mais longo, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Foram 228 contra a umbanda e 161 contra o candomblé, segundo a Alma Preta, que cita o MDHC.
A Constituição garante a liberdade de crença. Pelo artigo 5º, inciso VI, a liberdade de consciência e de crença é inviolável. O livre exercício dos cultos religiosos também é assegurado. A Lei 14.532, de 2023, alterou a Lei 7.716, de 1989, que define crimes de racismo. Ela pune com as mesmas penas quem impede ou usa violência contra manifestações ou práticas religiosas.
O que diz o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC): O ministério publica os dados do Disque 100 e foi parceiro da pesquisa Respeite o meu terreiro. Até a publicação, não encontramos nota oficial do órgão sobre terreiros no período eleitoral.
Os dados mostram aumento de denúncias contra religiões de matriz africana no primeiro semestre de 2026. Eles não explicam a causa, nem provam que a eleição a provocou. Não encontramos balanço oficial do ministério para o semestre. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, segundo o Jornal Grande Bahia. Pela Constituição, a liberdade de crença não faz distinção entre igrejas e terreiros.
Como fizemos: Usamos o total de 270 denúncias de religiões de matriz africana no primeiro semestre de 2026 e de 192 no mesmo período de 2025, segundo o A Crítica, que cita o Disque 100. A variação de 40,6% é nosso cálculo (270 dividido por 192). As fontes foram acessadas em 22 de outubro de 2026. Não consultamos o painel oficial do Disque 100 nem a pesquisa original, e os dados não mostram a causa do aumento.
Fontes
- Brasil registra denúncias de intolerância religiosa no primeiro semestre — A Crítica
- Intolerância religiosa entra no debate eleitoral de 2026 enquanto terreiros relatam violência e ameaças — Jornal Grande Bahia, 02/10/2026
- Racismo religioso: 76% dos terreiros no Brasil sofreram violências — Diário de Pernambuco, 07/12/2025
- Pernambuco teve média mensal de 15 denúncias ou violações contra liberdade religiosa em 2025 — Diário de Pernambuco, 21/01/2026
- Denúncias de racismo religioso crescem 12,2% entre 2025 e 2026 — Alma Preta, 22/01/2026
- Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023 — Senado Federal
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto



