Opinião

Igrejas históricas precisam de manutenção contínua, não de discurso

A queda do forro da Igreja de São Francisco, em Salvador, mostrou o preço de adiar a conservação; cuidar antes custa menos do que restaurar.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Ilustração abstrata de uma janela em arco, contornada de dourado, aberta para um céu estrelado azul-noite (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Na tarde de 5 de fevereiro de 2025, parte do forro da Igreja de São Francisco, no Centro Histórico de Salvador, desabou. Uma turista de 26 anos, de Ribeirão Preto (SP), morreu no local. Outras cinco pessoas tiveram ferimentos leves, segundo o SBT News. A igreja, uma das joias do barroco brasileiro, fechou as portas.

O caso não foi um raio em céu azul. Segundo o Ministério da Cultura, citado pelo SBT News, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) havia multado a província franciscana dona do templo em maio de 2022. O motivo era a “degradação da Igreja por falta de manutenção e conservação”. O Iphan afirmou que sabia da falta de manutenção, mas não da situação de emergência.

A conta da demora

Depois da tragédia, veio o dinheiro. O Iphan iniciou obras emergenciais em março de 2025 e gastou R$ 2,4 milhões nelas, segundo o Bahia Notícias.

Em fevereiro de 2026, o instituto garantiu cerca de R$ 20 milhões do Novo PAC, o programa federal de investimentos em obras. O valor cobre só a primeira fase do restauro. Naquele mês, a igreja seguia fechada ao público.

A lição é dura. A conservação preventiva é feita de tarefas modestas: limpar calhas, trocar telhas, combater cupins, vistoriar forros e madeiras. Custa pouco perto de um restauro. Quando é adiada, o problema cresce em silêncio, dentro do telhado, até virar emergência.

Quem deve cuidar

A lei brasileira já divide as responsabilidades. O Decreto-Lei 25, de 1937, que criou o tombamento, trata do dono de um bem tombado que não tem dinheiro para as obras. Ele deve avisar o órgão federal de patrimônio, hoje o Iphan, sob pena de multa. Recebido o aviso, cabe à União fazer a obra ou desapropriar o bem.

A regra existe há quase 90 anos. O que falta é rotina. Dioceses, ordens religiosas e irmandades precisam de planos de manutenção, com vistorias anuais e registro de cada problema.

O Iphan precisa de equipe e orçamento para vistoriar antes, e não depois. As comunidades podem ajudar, como sempre ajudaram, com doações, mutirões e atenção à primeira rachadura.

Um templo histórico não é só monumento. É casa de oração viva, onde se batiza, se casa e se reza pelos mortos. Por isso, notas de pesar depois de cada tragédia não bastam. Quem ama essas igrejas precisa cobrar calendário, verba e fiscalização.

O que dizem os que discordam: O dinheiro público é limitado, e saúde, educação e segurança disputam o mesmo orçamento. Para essa visão, a conservação cabe primeiro aos proprietários. Pela lei de 1937, a União só assume a obra quando o dono declara não ter recursos.

O argumento é sério, e os donos dos templos têm de fato o primeiro dever. Mas o caso de Salvador mostra que a economia de hoje vira a conta de amanhã, maior e às vezes trágica. A igreja vai ser restaurada, e isso é bom. A melhor homenagem às outras igrejas antigas do país é um calendário de manutenção cumprido, ano após ano.

Fontes