Opinião

Ensinar a história do Brasil sem vergonha das raízes

A carta de Caminha, a primeira missa e a Terra de Santa Cruz fazem parte de quem somos, assim como a escravidão, e a escola deve ensinar tudo.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Ilustração abstrata de uma janela em arco, contornada de dourado, aberta para um céu estrelado azul-noite (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

No domingo 26 de abril de 1500, o frei Henrique de Coimbra celebrou uma missa num ilhéu da baía onde a frota de Cabral ancorou, no litoral da atual Bahia. O relato está na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel. Segundo Caminha, a missa “foi ouvida por todos com muito prazer e devoção”.

A mesma carta, guardada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, registra os primeiros nomes. Cabral chamou o monte avistado de Monte Pascoal e a terra de Terra de Vera Cruz. Caminha datou o texto de 1º de maio, “deste Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz”.

Nos anos seguintes, documentos e mapas passaram a falar em Terra de Santa Cruz. Só depois se firmou o nome Brasil, associado ao pau-brasil.

Uma história de muitos povos

Dessa origem vem o nome desta revista, e dela não há do que se envergonhar. A fé cristã chegou com os portugueses e marcou a língua, o calendário, as festas e a arquitetura do país. Negar isso seria apagar uma parte do que somos.

Mas o Brasil não nasceu só de Portugal. Aqui já viviam muitos povos indígenas, com línguas e crenças próprias. Milhões de africanos foram trazidos à força e escravizados.

Eles deixaram marcas profundas na música, na comida, na religião e no próprio catolicismo popular. Depois vieram imigrantes da Itália, da Alemanha, do Japão, do Líbano e de tantos outros lugares.

A lei já pede esse retrato completo. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) manda que o ensino de História considere as contribuições “das matrizes indígena, africana e européia” na formação do povo. Desde 2008, a lei também torna obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena.

Feridas também se ensinam

Ensinar sem vergonha não é ensinar sem honestidade. A escravidão durou mais de três séculos no Brasil. Só acabou em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea. Essa ferida também é nossa história e precisa ser contada com a mesma seriedade das conquistas.

O desafio é fugir dos dois extremos. Uma história só de glórias forma cidadãos ingênuos. Uma história só de culpas forma cidadãos sem raízes. O aluno pode ler a carta de Caminha e os relatos sobre a escravidão, conhecer as igrejas barrocas e os quilombos.

A própria carta ajuda a ensinar com equilíbrio. Caminha descreve com curiosidade e admiração os indígenas que encontrou. E já anuncia a intenção missionária: “o melhor fruito que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente”. O texto permite discutir fé, encontro, conquista e suas consequências, tudo na mesma aula.

O que dizem os que discordam: Para os defensores de uma revisão crítica, a história escolar contou por muito tempo o país pelo olhar do colonizador. Rever as narrativas nacionais seria necessário para incluir indígenas, africanos e outros grupos esquecidos.

O ponto é justo, e essa revisão já trouxe ganhos reais. Mas incluir não precisa significar apagar. A escola pode ensinar a primeira missa e a resistência indígena, os santuários e os quilombos. Um povo que conhece suas raízes inteiras, com luzes e sombras, tem mais condições de construir o futuro em comum.

Fontes