Opinião

Liberdade religiosa só é real se valer igual para terreiro e igreja

Umbanda e candomblé lideraram as denúncias de intolerância religiosa no Disque 100 em 2024; quem defende a própria fé deve defender a do vizinho.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Ilustração abstrata de uma janela em arco, contornada de dourado, aberta para um céu estrelado azul-noite (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 2024, o Disque 100, canal federal de denúncias de violações de direitos humanos, recebeu 2.472 denúncias de intolerância religiosa. O dado é do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), segundo a Agência Brasil. Foi uma alta de 66,8% sobre 2023. Entre as vítimas com religião informada, umbanda (151 casos) e candomblé (117) aparecem no topo.

A lista não para aí. Evangélicos aparecem em 88 denúncias, católicos em 53 e espíritas em 36. Houve casos contra muçulmanos e judeus.

Em 1.842 denúncias, a religião nem foi indicada. Os números mostram uma ferida que atinge muitas crenças, mas que dói mais nos terreiros.

Uma regra para todos

A Constituição de 1988 não escolhe templos. O artigo 5º, inciso VI, diz que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”. O texto garante “o livre exercício dos cultos religiosos” e “a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Isso vale para a catedral, para a igreja de bairro, para o centro espírita e para o terreiro.

Quem tem fé deveria ser o primeiro a entender isso. Um católico que vê a imagem de uma santa quebrada sente a ofensa. Um evangélico sabe o que é ser alvo de deboche por causa da fé.

O filho de santo que encontra o terreiro depredado sente a mesma dor. A ofensa ao sagrado do outro é da mesma natureza da ofensa ao nosso.

Há quem defenda a própria igreja com vigor e silencie diante do ataque ao terreiro da rua de trás. Essa liberdade pela metade não se sustenta. Uma sociedade que tolera a pedra no terreiro abre caminho para a pedra na igreja. A liberdade religiosa é como uma ponte: aguenta o peso de todos ou não aguenta o de ninguém.

Convicção não é licença

Respeitar não significa concordar. O cristão pode crer que o Evangelho é a verdade e anunciá-lo com liberdade. O praticante do candomblé pode cultuar os orixás com a mesma liberdade. O que nenhum dos dois pode é invadir, quebrar, ameaçar ou humilhar o outro.

A lei já trata disso. A Lei 7.716, de 1989, pune a discriminação e o preconceito por religião, ao lado dos de raça, cor, etnia e procedência nacional. O que falta, muitas vezes, é a disposição de aplicar a regra sem olhar para o nome do templo atacado.

Os líderes religiosos têm aqui um papel decisivo. Um pastor que condena do púlpito a violência contra terreiros faz mais do que muitas campanhas. Um padre que se solidariza com uma mãe de santo agredida ensina mais do que um sermão. A palavra de quem é ouvido pela comunidade pesa.

O que dizem os que discordam: Há quem defenda que o Estado não deve criar proteções específicas para grupos religiosos determinados. Para essa visão, a lei deve punir com o mesmo rigor qualquer agressão à fé. Proteções particulares poderiam alimentar ressentimento entre as crenças.

Essa objeção, no fundo, reforça o ponto desta coluna. A Constituição já protege todos por igual, e é essa igualdade que precisa sair do papel. O desafio é aplicar a mesma regra, com o mesmo rigor, seja qual for o altar atacado. Quem quer liberdade para rezar em paz precisa querer o mesmo para o vizinho.

Fontes