Liberdade religiosa

Pastor diz que a promessa de Flávio é inconstitucional

O reverendo Leonardo Carvalho chamou o decreto prometido de 'perigoso, inconstitucional e teologicamente equivocado' e disse que 'o país não é uma igreja'.

O pastor Henrique César pregando em culto na igreja Casa do Oleiro
Um pastor prega durante culto na igreja Casa do Oleiro, em foto de 9 de outubro de 2019 (foto de arquivo).Foto: Daniel Reis / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Um pastor evangélico respondeu com um vídeo próprio à promessa de Flávio Bolsonaro de “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O veredito do reverendo Leonardo Carvalho foi direto: para ele, a promessa é “perigosa, inconstitucional e teologicamente equivocada”, reportou o Estado de Minas. A resposta foi construída com passagens bíblicas, segundo o jornal.

A promessa que gerou a crítica foi feita em agosto, em vídeo nas redes sociais do candidato do Partido Liberal. Nele, Flávio disse que o decreto seria “um dos meus primeiros atos” de governo, relatou o jornal O Tempo.

O erro jurídico

Para o reverendo, a medida choca com a Constituição, que garante a liberdade religiosa e a laicidade do Estado. Laicidade é a separação entre o poder público e as igrejas: o Estado não tem religião e não escolhe a fé de ninguém. O artigo 19 da Constituição veda ao poder público “estabelecer cultos religiosos ou igrejas”.

O vídeo do pastor abre com a fala de Flávio. Depois, ele explica, um a um, os três adjetivos. No “perigo”, ele defende as demais religiões do Brasil e os seus fiéis.

“Presidente não é pastor, o país não é uma igreja”, afirmou Carvalho, citado pelo Estado de Minas. Para o reverendo, “o cidadão não tem que professar a mesma fé que o seu governante pra ter pertencimento”. E arrematou: “O nome disso é totalitarismo. Estão tentando implementar o evangelistão.”

No neologismo do pastor — palavra nova cunhada por ele — fé e Estado viram uma coisa só. Na parte jurídica, ele lembra que a ação é incompatível com a Constituição, que garante e protege a liberdade e a laicidade do Estado. Logo, não seria possível transformar a fé em lei.

O equívoco teológico

O incômodo maior, disse o reverendo, é o teológico. Teologia é o estudo das coisas de Deus. Errada, aqui, quer dizer errada do ponto de vista da fé.

Para o pastor, a promessa pode parecer cristã e piedosa. Mas é, na sua leitura, “uma tentativa desonesta de capturar consciências pelos símbolos da fé”.

Aí o reverendo foi à Bíblia. “Jesus não disse: tome o estado para mim, ide e governai. Essas palavras nunca saíram de Jesus”, afirmou.

Ele citou a resposta de Jesus sobre os tributos: “dá a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Depois, lembrou a resposta a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo”.

A conclusão fecha o argumento. “O reino de Deus não precisa de um decreto presidencial para existir, não precisa de um governo para se estabelecer. Ele está no meio de nós”, disse o reverendo.

A crítica veio de dentro do meio evangélico, não de fora. Outros líderes já haviam manifestado dúvidas sobre o candidato. Ouvidos pela Agência Pública, alguns pastores disseram que ele “não parece evangélico” — e citaram festas de carnaval, o uso de cigarro eletrônico e o linguajar do senador. A reportagem investigou por que a imagem “Bolsonaro” não cola entre os evangélicos.

Os números também mostram desconforto. Entre maio e junho, o apoio evangélico a Flávio caiu de 61% para 52%, mediu o instituto de pesquisas Quaest. As dúvidas, portanto, não vêm de adversários declarados: vêm de quem cuida de almas.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato mantém a promessa do decreto. No vídeo, ele disse que quer debater “com quem não acredita em Deus”. E afirmou: “‘Deus, pátria, família e liberdade’ não são slogan de campanha para mim. São fundamentos para a vida”, segundo o O Tempo.

A 11 dias do segundo turno, o voto evangélico está em disputa palmo a palmo. As dúvidas do meio evangélico não são um detalhe: movem eleitores.

A crítica do reverendo Leonardo Carvalho deixa a pergunta para o fiel que vai às urnas no dia 25. Se o Reino de Deus não precisa de decreto presidencial, o decreto prometido não serve à fé. Serve à campanha.

Fontes