Fé

Dono da produtora de Dark Horse tem ONGs evangélicas com verba pública

Uma ONG ligada ao dono da produtora do filme Dark Horse recebeu R$ 1,08 milhão em emendas. Nenhum dinheiro de igreja aparece ligado ao filme.

Vista aérea de um prédio modernista de vidro e concreto, com dez andares, cercado de avenidas e edifícios no centro de São Paulo
O Palácio Anchieta, sede da Câmara Municipal de São Paulo, de onde saíram as emendas destinadas à ONG.Foto: Boneysp / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Uma ONG ligada ao dono da produtora do filme Dark Horse recebeu R$ 1,08 milhão em emendas da Câmara Municipal de São Paulo. O dinheiro foi destinado a um evento de jovens da Igreja Universal, segundo reportagem do Intercept publicada em dezembro de 2025.

Outra ONG do mesmo grupo tem um contrato de R$ 108 milhões para o Wi-Fi público da prefeitura. Nenhum dinheiro de igreja aparece como destinado ao filme. Ainda assim, a rede em volta da produção levanta uma questão de fé e de dinheiro público.

Organização não governamental (ONG) é uma entidade privada e sem fins lucrativos. Ela pode receber verba pública por meio de emendas parlamentares, que são recursos que vereadores e deputados destinam a entidades e projetos. Essas verbas exigem prestação de contas.

O filme e a investigação

O Dark Horse trata da vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. A Polícia Federal (PF) investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas (envio ilegal de dinheiro ao exterior) e corrupção ligadas ao financiamento do filme.

Desde 22 de julho, Flávio é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido da PF, segundo a Agência Brasil. Investigado não é réu, e ele não foi condenado.

Segundo o Intercept, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões ao projeto. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O dinheiro foi para o Havengate, fundo do Texas ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Dinheiro público, ONGs e o filme: o que está documentado Valores em reais e dólares, conforme informados em cada reportagem, 2025 e 2026

Item Valor
Emendas para evento de jovens da Igreja Universal, de ONG ligada ao dono da produtora R$ 1,08 milhão
Contrato de Wi-Fi público da prefeitura, com outra ONG do mesmo grupo R$ 108 milhões
Pagamentos de Vorcaro ao projeto, entre fev. e mai. de 2025 (mínimo) US$ 10,6 milhões
Saídas do país, segundo a PF mais de US$ 12 milhões
Entradas registradas de volta, segundo a PF US$ 2,8 milhões

Fontes: Intercept (dez. 2025 e mai. 2026); ConJur e O Povo/DW (out. 2026). Elaboração: redação.

A PF aponta a lacuna mais grave. Mais de US$ 12 milhões saíram do país, mas só US$ 2,8 milhões voltaram com registro. A PF chama a diferença de “severa”. Em 16 de outubro, pediu mais 90 dias para concluir o inquérito, segundo o ConJur.

Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou de Vorcaro pagamentos atrasados. Em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão do banqueiro, enviou a mensagem “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, segundo o Intercept. Em 13 de maio de 2026, pela manhã, ele chamou a reportagem sobre o caso de mentira. À noite, confirmou que buscava “patrocínio privado” para o filme.

Fé e dinheiro ao redor do filme

Igrejas não aparecem como financiadoras do filme, e nenhum pagamento de igreja à produção foi documentado. A ligação está em outro ponto: o dono da produtora administra ONGs que receberam verba pública e têm vínculo com igrejas evangélicas.

Flávio se declara evangélico e usa a fé na campanha. Por isso, a origem do dinheiro ligado a organizações religiosas interessa ao eleitor de fé. O caso mostra uma rede de entidades e de verbas públicas em volta da produção, não um pagamento de igreja ao filme.

Flávio diz que a relação com Vorcaro era privada e que o dinheiro era lícito. Segundo ele, ser senador não lhe rendeu contrapartida ao banqueiro.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista ao Globo, reproduzida pela CNN Brasil em 16 de outubro, ele disse que a relação com Vorcaro era privada e o dinheiro, lícito, sem contrapartida por ser senador. Atribui a falha a um contrato que não foi cumprido.

O que está em aberto

O inquérito no STF ainda não tem decisão. Flávio nega qualquer contrapartida, e o caso segue em investigação, sem acusação formal contra ele.

Os fatos documentados são estes: dinheiro prometido por um banqueiro investigado foi para um fundo ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro, e o dono da produtora administra ONGs que receberam verba pública. Se há ligação entre essas partes, só a investigação pode dizer.

Como fizemos: Usamos reportagens do Intercept (dezembro de 2025, maio e julho de 2026), da Agência Brasil, do ConJur e da CNN Brasil, acessadas em 21 de outubro de 2026. Os valores são os informados em cada fonte, sem conversão nem correção pela inflação. Não fizemos cálculo próprio. O Intercept é publicação de esquerda, e os valores das emendas e do contrato não foram confirmados por outra fonte.

Fontes