Fé

"Não era o bispo, era a igreja": a frase de Flávio no culto

No centenário da Assembleia de Deus Madureira, Flávio Bolsonaro disse que "o bispo não pediu, mas a igreja está pedindo"; entidade laica pede investigação.

Plenário do Senado Federal com senadores sentados nos assentos e o senador Flávio Bolsonaro na Mesa diretora, ao alto, em Brasília
O senador Flávio Bolsonaro na Mesa do plenário do Senado Federal, em Brasília, durante sessão deliberativa de 1º de setembro de 2026 (foto de arquivo).Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No sábado (10), a Assembleia de Deus Ministério Madureira celebrou 100 anos com um culto no Maracanãzinho, ginásio público estadual na zona norte do Rio de Janeiro. Do púlpito, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (Partido Liberal) deixou a frase que resume a noite. “O bispo não pediu, mas a igreja está pedindo”, disse ele, segundo o Jornal de Brasília.

A frase é curta e admite o essencial. Pouco antes, o bispo Samuel Ferreira havia conduzido o ginásio lotado num coro que repetiu 14 vezes o lema “irmão vota em irmão”, relatou o mesmo jornal. O bispo negou que pedisse voto. Mas avisou: “Se eu pudesse pedir voto, eu pediria.”

O bispo detalhou o pedido que dizia não fazer. “Pediria voto para o Flávio, porque o Flávio é honesto”, afirmou, em fala registrada pelo Jornal de Brasília. Chamou o candidato de “crente” e “cheio de Deus”. E o convidou ao palco como “futuro presidente da República Federativa do Brasil”.

A cautela do bispo tem razão legal. A Lei das Eleições restringe propaganda política em templos religiosos e ginásios, lembra a própria representação contra o episódio. Por isso, o pedido veio embrulhado em condicionais: ninguém pedia — todos apenas “pediriam”.

O que a frase admite

Ao assumir o microfone, Flávio poderia ter demarcado a distância: ali era um culto, não um comício. Fez o contrário. Confirmou, do púlpito, que o pedido de voto era da igreja — diante dos fiéis e da imprensa.

O bispo passara a noite explicando que não pedia voto. O candidato resolveu a dúvida em uma linha: a igreja estava pedindo.

A frase virou peça central de uma representação entregue à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE), o braço do Ministério Público que atua nas eleições. Para a denúncia, o senador reconheceu, com as próprias palavras, a manifestação eleitoral feita durante o culto.

Uma representação é um pedido formal de investigação. O autor é a Associação Movimento Brasil Laico (MBLaico). Na denúncia, segundo o ICL Notícias, a entidade aponta propaganda eleitoral irregular, abuso de poder econômico e uso da estrutura religiosa para favorecer o candidato do PL.

O pedido é urgente: a MBLaico quer medida que impeça novos pedidos de voto, diretos ou simulados, em cultos e templos até o segundo turno, em 25 de outubro. E vai além. Quer que o Ministério Público Eleitoral avalie uma ação capaz de levar à cassação do registro ou do diploma de Flávio e à inelegibilidade dos responsáveis por oito anos.

Nada disso foi decidido até agora. Não há condenação nem ação em curso; há uma denúncia em análise.

O ginásio público e a imunidade

A representação questiona ainda o palco escolhido. O Maracanãzinho é um equipamento público estadual. Para a entidade, usar o local para a promoção de uma candidatura presidencial agrava o quadro.

Outro pedido vai além da campanha. A MBLaico quer que a Receita Federal e os órgãos fazendários investiguem eventual desvio de finalidade da estrutura religiosa. Se confirmado em processo próprio, o caminho seria a suspensão da imunidade tributária da denominação. Imunidade tributária é a proteção que livra os templos de certos impostos.

Flávio não tratou o episódio como pedido de voto. No Maracanãzinho, disse que enfrenta “inimigos mentirosos” e uma “guerra espiritual que o Brasil está passando nesse momento”, reportou a Gazeta do Povo. A mesma expressão já havia sido usada por ele na Marcha for Jesus, em junho, relatou a CNN Brasil.

O que diz Flávio Bolsonaro: No culto, o candidato disse que o bispo não pediu voto — mas que a igreja estava pedindo. Ele também afirmou que enfrenta “inimigos mentirosos” e uma “guerra espiritual” que o Brasil atravessa, segundo o Jornal de Brasília e a Gazeta do Povo.

A dez dias do segundo turno, a frase de Flávio disse mais do que ele talvez pretendesse. Se o pedido de voto não era do bispo, era da igreja — e culto e palanque viraram a mesma coisa diante das câmeras.

O púlpito é, para quem crê, o lugar da palavra de Deus. Cada vez que vira palanque, a igreja sai menor: perde autoridade quem o usa, e perde liberdade quem escuta. A denúncia da MBLaico vai testar, antes do dia 25, se a lei eleitoral separa as duas coisas.

Fontes