"Irmão vota em irmão" 14 vezes: o culto no Maracanãzinho
Flávio cantou no culto de centenário da Assembleia de Deus Madureira, em ginásio público no Rio; grupo laico pede ao MP cancelar sua candidatura.

No sábado (10), o ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, recebeu o culto de centenário da Assembleia de Deus de Madureira. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), cantou no palco. Segundo o Jornal de Brasília, o bispo Samuel Ferreira, líder da igreja, conduziu a plateia a repetir 14 vezes o grito “irmão vota em irmão”. O jornal descreveu o momento como um “pedido simulado de voto” ao candidato.
O ginásio é público, do estado do Rio. A igreja celebrava cem anos e é um dos campos evangélicos mais tradicionais do país. Ferreira está entre os líderes religiosos que apoiam publicamente a candidatura, ao lado do pastor Silas Malafaia. Este declarou apoio em culto na própria igreja em maio, conforme o Estado de Minas.
A cena resume a estratégia da reta final: um ginásio público, a festa dos cem anos e um candidato a presidente no palco do culto. Quem conduziu o coro não foi o palanque, mas o bispo da casa. A celebração terminou no terreno da campanha — e foi isso que virou objeto de queixa.
No mesmo evento, Flávio voltou a dizer que o Brasil enfrenta uma “guerra espiritual”, conforme a Gazeta do Povo. A expressão não é nova na campanha: ele já a tinha usado na Marcha para Jesus, em junho, segundo a CNN Brasil. O vocabulário sagrado e o pedido de voto dividiram, assim, o mesmo palco.
A queixa e a imunidade
O Movimento Brasil Laico (MBLaico), grupo que defende o Estado laico, levou o caso ao Ministério Público (MP). Segundo o site ICL Notícias, a entidade pediu o cancelamento da candidatura de Flávio e a revisão da imunidade tributária da igreja. A imunidade é a proteção que a Constituição dá aos templos: impostos não incidem sobre templos de qualquer culto. Pedir a revisão de uma proteção desse tamanho mede a gravidade que a entidade enxerga no episódio.
Não é a primeira queixa do grupo contra o candidato neste ano. Em maio, após o apoio de Malafaia em culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), em Penha, o MBLaico alegou abuso de poder religioso. Alegou também doação de fonte vedada, pois igrejas não podem financiar campanhas.
O procurador decidirá se entra com ação, segundo a Agência Pública. Sobre as duas queixas, ainda não há decisão.
O voto evangélico em jogo
O culto do Maracanãzinho chegou no momento em que o apoio evangélico a Flávio oscila. Entre maio e junho, o índice caiu de 61% para 52%, segundo pesquisa Quaest relatada pela Agência Pública. O segundo turno será em 25 de outubro, e o eleitorado evangélico é um dos mais disputados do país. Por isso, o palco de um centenário vale ouro para qualquer campanha — e o coro de um ginásio, mais ainda.
Para quem vive a fé de perto, o episódio deixa uma inquietação específica. O centenário de uma igreja é momento de culto, memória e gratidão. Transformá-lo em ato de campanha expõe o templo a queixas e pedidos de revisão fiscal. A conta não vem para o candidato, que segue com o fundo do partido: vem para a igreja, que tem o altar, e não o palanque, como patrimônio.
A mesma proteção que blinda os templos de qualquer credo pressupõe uma fronteira: o espaço sagrado não é máquina de campanha. Quem apaga a fronteira em ano eleitoral coloca em risco o que a Constituição protege desde 1988. O risco vale para católicos, evangélicos, espíritas e religiões de matriz africana — a regra é uma só.
O que diz Flávio Bolsonaro: segundo o Jornal de Brasília, o candidato afirmou no próprio evento que quem pedia voto não era o bispo, “era a igreja”.
Faltam dez dias para o segundo turno, e as queixas seguem sem decisão. O que ficou registrado do centenário, em vídeo, é o grito repetido 14 vezes e o candidato cantando no palco. Cabe agora ao Ministério Público examinar o episódio. E cabe a cada igreja pesar o que ganha — e o que arrisca — quando empresta o altar a uma campanha.
Fontes
- Flávio Bolsonaro canta em culto e recebe pedido simulado de voto — Jornal de Brasília
- Entidade pede investigação de Flávio Bolsonaro — ICL Notícias
- Em evento evangélico, Flávio Bolsonaro diz que Brasil enfrenta guerra espiritual — Gazeta do Povo
- Marcha para Jesus: Flávio cita guerra espiritual — CNN Brasil
- Flávio Bolsonaro recebe apoio de Malafaia durante culto no RJ — Estado de Minas
- Procurador decidirá se entra com ação contra Flávio e Malafaia — Agência Pública
- Por que imagem Bolsonaro não cola nos evangélicos — Agência Pública



