Flávio acusa a CNBB sem provas, e os bispos reagem
O candidato disse que gente de dentro da CNBB espalhou o boato sobre Nossa Senhora Aparecida; os bispos negaram no mesmo dia e cobraram provas.

Em 27 de setembro, Flávio Bolsonaro disse que pessoas de dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudaram a espalhar um boato contra ele. O boato dizia que o candidato quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A CNBB respondeu no mesmo dia, segundo o Poder360. Disse que a acusação não tinha fatos nem provas.
A CNBB reúne os bispos católicos do país. É a voz institucional da Igreja Católica no Brasil. Acusá-la de espalhar mentira, sem apresentar prova, é atacar a hierarquia da maior tradição religiosa do país em plena campanha.
O boato e a negativa
Flávio nega que pretenda mexer no título de Aparecida. Segundo a CNN Brasil, ele chamou a história de mentira do Partido dos Trabalhadores (PT). Até aí, o candidato se defendia de um boato. O problema começou quando ele apontou um culpado sem mostrar evidência.
Os bispos reagiram rápido. Além da nota da CNBB, um bispo criticou o histórico de ataques da família Bolsonaro à entidade, segundo o portal Metrópoles. A crítica lembrou que a acusação de Flávio não surgiu do nada. Ela se soma a um histórico de choques do clã com a conferência.
O registro tem ainda um detalhe que complica a versão do candidato. O pastor que batizou Flávio em 2024, em Brasília, havia escrito um livro defendendo a retirada do título de padroeira de Aparecida. A informação foi registrada pela CNN Brasil. Não há registro de que Flávio apoie a tese do livro.
O livro do pastor que o batizou já bastava para alimentar dúvidas entre os católicos. Apontar os bispos, nesse contexto, desviou o foco de uma pergunta mais simples: por que o assunto ganhou força?
Um padrão de acusações sem base
A fala sobre a CNBB não é um caso único na campanha. Em 8 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou retirar, por unanimidade, três publicações de Flávio no X. Duas ligavam o presidente Lula ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) sem base em fatos. A terceira usava inteligência artificial sem aviso.
O roteiro se repete: uma acusação grave, nenhuma prova e a correção vindo de fora. No caso dos bispos, a correção veio da própria Igreja. E veio no mesmo dia, sem rodeios.
A acusação também destoa da campanha que Flávio faz. Em agosto, ele prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e de equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas. Quem usa tanto a fé no palanque precisa de cuidado redobrado ao acusar líderes religiosos.
A CNBB não é estranha à vida pública. Em 2010, promoveu em Brasília um debate entre os candidatos à Presidência, como lembra a foto desta reportagem. Mas participar do debate é diferente de fabricar boatos. E foi isso que Flávio insinuou, sem provar.
Para o católico, o episódio pesa de outro jeito. Nossa Senhora Aparecida não é só um título no papel. É a devoção de milhões de famílias, celebrada todo 12 de outubro. A disputa sobre o título, portanto, toca um ponto sensível da fé popular brasileira.
Flávio se apresenta como evangélico desde a juventude, segundo a Agência Pública. Ele busca votos também entre os católicos, que são uma parte grande do eleitorado. Atacar a CNBB sem provas não ajuda nessa conversa. E deixa a impressão de que, para a campanha, até os bispos podem virar adversários.
O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato nega que queira tirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida e chama a história de mentira do PT, segundo a CNN Brasil. Em 27 de setembro, afirmou que pessoas dentro da CNBB ajudaram a espalhar o boato, conforme o Poder360.
A CNBB já disse o que tinha a dizer: a acusação não tem fatos nem provas. Cabe a Flávio mostrar o contrário, se puder. Até agora, não mostrou. A dez dias do segundo turno, um candidato que fala tanto em fé deveria tratar os pastores da Igreja Católica com a mesma verdade que cobra dos adversários.
Fontes
- Bispos católicos criticam fala de Flávio sobre fake news de padroeira — Poder360
- Bispo critica clã Bolsonaro após Flávio acusar CNBB de divulgar fake news — Metrópoles
- Flávio nega que pretenda tirar Nossa Senhora Aparecida como padroeira — CNN Brasil
- Flávio diz que vai decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo — O Tempo
- Flávio promete declarar Brasil a Jesus, e pastor critica — Estado de Minas
- TSE manda retirar do ar vídeos com uso de inteligência artificial publicados por Flávio Bolsonaro — TSE
- Por que imagem Bolsonaro não cola nos evangélicos — Agência Pública



