Cultura

Nossa Senhora Aparecida no meio da campanha

No mês do 12 de outubro, a padroeira virou tema eleitoral: Flávio nega querer tirar o título, mas o pastor que o batizou escreveu contra ele.

Basílica de Nossa Senhora Aparecida, com cúpula e torre de tijolos, vista de uma passarela de ferro sob céu azul
A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP), em agosto de 2025.Foto: TMX Gargoyle / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Na segunda-feira (12), o Brasil celebrou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país. Neste ano, a festa chegou com um ingrediente estranho à devoção: a campanha eleitoral. Nas semanas anteriores, a santa virou assunto de boato, de desmentido e de troca de acusações entre um candidato a presidente e os bispos católicos.

O candidato é Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). Ele nega que pretenda tirar de Aparecida o título de padroeira. Segundo a CNN Brasil, chamou essa história de mentira do Partido dos Trabalhadores (PT). O registro, porém, mostra que a desconfiança tinha de onde nascer.

Uma devoção que é patrimônio

A história de Aparecida começa em 1717, quando pescadores encontraram a pequena imagem no rio Paraíba do Sul, no interior paulista. Em 1930, a santa foi proclamada padroeira do Brasil. Desde 1980, o 12 de outubro é feriado nacional.

A devoção ultrapassa a Igreja. Está nos nomes de cidades, de bairros e de filhas. Está nas romarias que enchem a Basílica de Aparecida o ano inteiro. É parte da memória que formou o país, inclusive para quem não é católico.

Para muitas famílias, a ida à Basílica é promessa cumprida, viagem de ônibus com os avós, vela acesa por um filho doente. Não se trata de um título burocrático. É um laço afetivo que passa de geração em geração.

Por isso, qualquer sinal de ameaça ao título mexe com muita gente. E foi esse sinal que circulou durante a campanha. O boato dizia que Flávio, se eleito, tiraria de Aparecida o posto de padroeira.

O livro, a negativa e os bispos

Flávio é evangélico desde a juventude, segundo a Agência Pública. Foi batizado quatro vezes. Um desses batismos foi em 2024, em Brasília, ao lado da esposa. O pastor que conduziu essa cerimônia havia escrito um livro defendendo a retirada do título de padroeira de Aparecida, segundo a CNN Brasil.

Não há registro de que Flávio defenda a tese do livro. Ele nega com todas as letras. Mas o livro existe, e o autor é o pastor que o batizou. Esse fato ajuda a entender por que a dúvida encontrou terreno fértil.

Em vez de explicar a relação, Flávio apontou culpados. Em 27 de setembro, disse que pessoas dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudaram a espalhar o boato. A CNBB negou no mesmo dia, segundo o Poder360. A entidade afirmou que a acusação não tinha fatos nem provas.

Um bispo foi além e criticou o histórico de ataques da família Bolsonaro à CNBB, segundo o portal Metrópoles. Assim, a padroeira deixou de ser só um boato de redes sociais. Virou um choque aberto entre o candidato e a hierarquia católica.

O episódio não é isolado. A campanha de Flávio usa a fé como argumento central. Em agosto, ele prometeu decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, segundo o jornal O Tempo. Um pastor chamou a ideia de inconstitucional e equivocada do ponto de vista teológico, segundo o Estado de Minas.

Quem transforma a fé em plataforma eleitoral também atrai as perguntas que vêm com ela. Para o católico, a pergunta sobre Aparecida é legítima. E a resposta não se resume a chamar tudo de mentira, quando a tese saiu da pena do pastor que o batizou.

O Estado brasileiro é laico. Isso significa que nenhum governo escolhe a fé do povo. O título de padroeira nasceu da devoção e da Igreja, e não de um decreto de campanha. Nenhum presidente deveria tratá-lo como moeda eleitoral, para um lado ou para o outro.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato nega que pretenda tirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida e atribui o boato a uma mentira do PT, segundo a CNN Brasil. Ele também afirmou que pessoas dentro da CNBB ajudaram a espalhar a história, o que a entidade negou.

A festa de 12 de outubro passou, e a padroeira segue onde sempre esteve: na fé das famílias e na cultura do país. A campanha, que termina no dia 25, é que precisa explicar por que a levou para o palanque. Aparecida pertence aos devotos, e não a quem disputa voto.

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