Cultura

Festa do Divino: a tradição de Pentecostes que atravessa o Brasil

De origem portuguesa, a festa reúne folias, bandeira, imperador e partilha de comida; as celebrações de Pirenópolis (GO) e Paraty (RJ) têm registro do Iphan.

Ilustração abstrata de azulejos com quadrifólios, em ocre, dourado e tons de linho (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 13 de maio de 2010, a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis, em Goiás, foi registrada como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 3 de abril de 2013, foi a vez da festa de Paraty, no Rio de Janeiro. As duas estão no Livro das Celebrações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A Festa do Divino celebra o Pentecostes, data cristã comemorada 50 dias depois da Páscoa. O dia lembra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. Em 2026, o Domingo de Pentecostes caiu em 24 de maio. Os preparativos, porém, começam semanas antes, e em alguns lugares a festa continua depois.

Origem portuguesa

A devoção chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses. A tradição atribui seu impulso à rainha Isabel de Aragão, mulher do rei Dom Dinis, no século 14, na vila de Alenquer. Lá, ela teria apoiado a confraria do Espírito Santo e os bodos, refeições oferecidas aos pobres.

A historiadora Maria Paula Marçal Lourenço, da Universidade de Lisboa, lembra que a fundação da confraria de Alenquer é “envolta em lendas”. Segundo ela, a festa perdeu força em Alenquer, mas continua forte nos Açores e na Madeira.

Como a festa funciona

Os elementos se repetem pelo país, com variações locais. As folias do Divino percorrem a cidade e a zona rural com a bandeira, cantos e orações. Em cada casa, recebem alimentos, pouso e doações para a festa, segundo o Iphan.

O imperador é outra figura central. Em Pirenópolis, o imperador ou a imperatriz é escolhido por sorteio. Em Paraty, um menino da comunidade é coroado imperador durante a missa na Igreja Matriz.

A partilha de comida também marca a celebração. Em Pirenópolis, há distribuição das “verônicas”, pãezinhos oferecidos como bênção, além de refeições comunitárias. Em Paraty, carne abençoada é distribuída a pessoas em situação de vulnerabilidade, na véspera do Pentecostes.

Cada cidade tem ainda seus marcos. A festa de Pirenópolis acontece desde 1819 e inclui as Cavalhadas, encenação de batalhas entre mouros e cristãos, e os mascarados. Em Paraty, cuja festa tem raízes no século 17, o levantamento do mastro no Domingo de Páscoa abre o ciclo festivo.

No Maranhão

No Maranhão, a festa tem as caixeiras, mulheres que tocam caixas e cantam ao Divino. Para os organizadores, sem elas “não há festa do Divino”, segundo o jornal O Imparcial. A maioria das festas do estado acontece em casas de culto de tambor de mina, religião de matriz africana.

Alcântara é uma exceção conhecida. Lá, a festa é católica, organizada com apoio das autoridades locais e sem vínculo com terreiros. Em 2023, a programação durou 12 dias.

O que diz o Iphan: Na plataforma Bem Brasileiro, o instituto afirma que o registro valoriza o papel da comunidade. Segundo o texto, a festa de Pirenópolis “continua viva graças à participação coletiva, à transmissão de saberes”.

O registro federal traz um compromisso: o Iphan deve reavaliar cada título pelo menos a cada dez anos. Em 2025, as festas de Pirenópolis e de Paraty tiveram os títulos revalidados. A próxima Festa do Divino terá como data central o Pentecostes de 16 de maio de 2027.

Fontes