Comportamento

Bets proibidas por MP: dados mostram quanto as famílias perderam

Estimativa do Comsefaz põe perdas com bets em R$ 62,5 bilhões em 2025. Dívidas das famílias somaram 81,7% em setembro, segundo a CNC.

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Desde 25 de setembro de 2026, as bets estão proibidas no Brasil. A Medida Provisória (MP) 1.394/2026 proibiu a exploração, a oferta e a publicidade de apostas online, segundo a Agência Câmara. Os números disponíveis mostram quanto dinheiro saiu das casas, mas não respondem tudo.

Ao assinar a MP, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou o problema a um câncer. “Isso é como um câncer. Ou a gente tira o tumor, ou esse tumor vai matar a gente”, disse, segundo a Agência Brasil.

Os apostadores puderam sacar o saldo até 5 de outubro. Os sites deveriam sair do ar a partir de 6 de outubro. Os bancos deveriam devolver os valores entre 9 e 14 de outubro, segundo o calendário oficial.

Quanto saiu do bolso das famílias

O Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) estima que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões com bets em 2025. O cálculo é o valor apostado menos o que voltou em prêmios, segundo a Agência Brasil. A perda equivale a 0,68% da renda disponível bruta das famílias.

Em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões a casas de apostas por Pix. A estimativa é do Banco Central, segundo a Rádio Senado. O valor equivale a 21% do total repassado pelo governo às famílias no mesmo período.

O próprio banco admitiu limites. Em resposta a um pedido de informação, disse que “não há garantias” de que o estudo “não esteja sujeito a falhas”. A LCA Consultoria, contratada pelo setor, estimou R$ 210 milhões no mesmo mês, com retorno de 93% aos jogadores.

O que a CNC mostra sobre as dívidas

Em setembro de 2026, 81,7% das famílias tinham dívidas, segundo a Peic, pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Em agosto, o índice era de 82%. A inadimplência, que mede contas em atraso, ficou em 29,6%.

O atraso médio subiu pela segunda vez seguida e chegou a 65,3 dias. É o maior patamar desde novembro de 2024. O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, disse que “a redução do endividamento e da inadimplência dá um pequeno respiro para as famílias”.

A Peic não separa os gastos com apostas. Por isso, a queda do índice em setembro não pode ser atribuída às bets.

Governo e setor discordam sobre o custo

A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que mantenha a proibição. Disse que órgãos públicos identificaram “indicativos de repercussões relevantes sobre o orçamento familiar”. Citou também alta de 140% no atendimento do SUS a pessoas com transtornos ligados ao vício em apostas.

As associações do setor, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), pediram a suspensão da medida. Dizem que a regra foi abrupta e causou perdas bilionárias a empresas que investiram sob a regra anterior.

A ANJL informou mais de 3,5 mil demissões diretas em menos de duas semanas, em levantamento de 7 de outubro. O governo estima perda de cerca de R$ 5 bilhões por ano em arrecadação. A AGU rejeitou a ideia de renúncia fiscal.

O que diz o Ministério da Fazenda: O ministro Dario Durigan disse que um fluxo de “R$ 600 milhões por dia” foi “basicamente anulado depois da medida” (Agência Brasil, 2/10/2026). O governo afirma que as apostas têm causado endividamento e problemas de saúde mental nas famílias (Agência Câmara).

Há também contestação jurídica. Um artigo do Consultor Jurídico (Conjur) sustenta que a MP viola o pacto federativo, porque os estados licenciavam as bets. É opinião de colunista, não decisão judicial.

O que vem a seguir

Até esta publicação, não encontramos decisão do STF sobre o pedido de suspensão. A MP precisa ser votada pelo Congresso em 120 dias, ou perde a validade, segundo a Agência Câmara.

Os dados mostram a dimensão do dinheiro envolvido. Não mostram quanto da dívida das famílias vem das bets. Esse efeito ainda não foi medido pelas fontes consultadas.

Como fizemos: Usamos a estimativa do Comsefaz (Agência Brasil, 6/8/2026), o estudo do Banco Central de agosto de 2024 (resumido pela Rádio Senado, 25/9/2024), a Peic de setembro de 2026 (CNC, divulgada em 8/10/2026) e os saldos informados pelo governo até 14/10/2026. Acessamos as fontes em 22/10/2026. Não recalculamos valores: a reportagem do Comsefaz não explica a média mensal citada, e o PDF do estudo do BC não pôde ser lido, por isso usamos o resumo da Rádio Senado. Os dados não mostram a parcela da dívida ligada às bets.

Fontes