O silêncio virou um bem raro e faz falta ao brasileiro
A OMS liga o barulho a danos à saúde e as notificações não param, mas as tradições de fé guardam um remédio antigo e gratuito: o recolhimento.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Em outubro de 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou novas diretrizes sobre ruído ambiental para a Europa. Para o barulho do trânsito, a recomendação é ficar abaixo de 53 decibéis, na média do dia inteiro. À noite, o limite cai para 45 decibéis. Acima disso, segundo a OMS, o ruído se associa a efeitos nocivos à saúde, como o sono perturbado.
Quem mora numa grande cidade brasileira conhece o problema. Buzina, moto, obra, som alto do vizinho.
A lei trata parte disso como contravenção penal. O artigo 42 da Lei das Contravenções Penais, de 1941, pune quem perturba “o trabalho ou o sossego alheios”. Horários e limites de barulho, porém, dependem das regras de cada cidade.
O barulho de dentro
Há um ruído mais discreto, que nenhum aparelho mede. É o celular que vibra a cada minuto, o grupo de mensagens que não dorme, o vídeo que começa sozinho. Ele não fere o ouvido, mas ocupa a mente. Muita gente já não suporta dez minutos sem algum estímulo.
As grandes tradições religiosas conhecem o valor do silêncio há milênios. O livro do Eclesiastes, na Bíblia, ensina que há tempo de calar e tempo de falar. Os judeus guardam o Shabat, um dia por semana separado do trabalho.
A Regra de São Bento, escrita no século 6, dedica um capítulo ao silêncio dos monges. Muçulmanos fazem retiros de oração nas mesquitas nos últimos dias do Ramadã. Budistas fazem da meditação silenciosa um caminho.
No Brasil, essa herança está perto de nós. Há mosteiros que recebem visitantes, retiros de fim de semana em paróquias e igrejas evangélicas, centros de meditação. Para os católicos, a Quaresma é tempo de recolhimento. Não falta onde aprender.
Pequenas pausas
Não é preciso fugir para um mosteiro. O silêncio pode começar em casa.
Desligar as notificações durante o jantar. Reservar dez minutos pela manhã para rezar, meditar ou apenas respirar. Caminhar sem fone de ouvido. Guardar um dia da semana com menos telas.
Para quem crê, o silêncio é o lugar onde se escuta Deus. “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”, diz o Salmo 46. Para quem não crê, é espaço para pensar, descansar e ouvir o outro de verdade. Nos dois casos, é condição para uma vida mais inteira.
Há também um ganho para a convivência. Quem aprende a ficar em silêncio aprende a escutar. Numa época de discussões aos gritos, nas ruas e nas redes, essa virtude faz falta.
O que dizem os que discordam: Para críticos dessa visão, silêncio é privilégio de quem mora em bairro tranquilo ou pode se desligar do trabalho. A conexão também trouxe ganhos reais. Ela aproxima famílias distantes, facilita o estudo e permite pedir ajuda numa emergência.
A objeção lembra que o silêncio também é assunto de política pública: planejamento urbano, fiscalização do barulho, direito ao descanso. Esse debate é necessário. Mas uma parte depende de cada um, e ela é gratuita. Num país barulhento, escolher alguns minutos de silêncio por dia é um pequeno ato de liberdade.
Fontes
- New WHO noise guidelines for Europe released — OMS Europa
- Environmental noise guidelines for the European Region — OMS Europa
- Compendium of WHO and other UN guidance on health and environment, capítulo 11: ruído ambiental — OMS
- Decreto-Lei nº 3.688/1941 (Lei das Contravenções Penais), art. 42 — Planalto


