Festas populares não são peças de museu e precisam de quem celebre
O registro do Iphan protege celebrações como o Bumba-meu-boi do Maranhão, mas só a comunidade que celebra com fé mantém a tradição viva.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Terra de Santa Cruz.

Em 4 de agosto de 2000, o Decreto 3.551 criou o registro do patrimônio cultural imaterial no Brasil. Um dos livros previstos é o das Celebrações. Nele entram “rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento”. Desde então, festas de todo o país ganharam o título de Patrimônio Cultural do Brasil.
Um exemplo é o Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão. Ele foi registrado em 2011 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2019, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o incluiu na lista do patrimônio imaterial da humanidade.
O título não basta
O registro é uma conquista. Dá visibilidade, gera documentação e abre portas para o apoio público.
Mas o próprio decreto traz um aviso. O Iphan deve reavaliar cada bem registrado pelo menos a cada dez anos. Se a revalidação for negada, fica apenas o registro, “como referência cultural de seu tempo”.
Em outras palavras, o título depende da vida da festa. Uma celebração que a comunidade deixa de fazer vira lembrança, por mais bonito que seja o dossiê. O patrimônio imaterial não se guarda em vitrine. Ele mora nos ensaios, nas promessas, nas cozinhas e nas rezas.
A fé no centro
Muitas dessas festas nasceram da devoção. Ao inscrever o Bumba-meu-boi, a Unesco descreveu uma prática em que a relação com o sagrado passa pela figura do boi. O texto da entidade também destaca o laço entre fé, festa e arte. O mesmo vale para folias, procissões, congadas e festejos de padroeiros por todo o país.
Quando a festa vira só espetáculo, algo se perde. O palco cresce, o patrocínio aparece, e a reza da madrugada fica para trás. O turista é bem-vindo, mas a festa não é feita para ele. É feita para o santo, para a promessa, para a comunidade que se reconhece ali.
Manter a tradição viva exige gente. Crianças que aprendem a tocar, jovens que bordam as roupas, idosos que ensinam as cantigas. A Unesco registra que o Bumba-meu-boi passa adiante por grupos infantis, oficinas de dança e pelo convívio dentro dos próprios grupos. Paróquias, escolas e famílias podem fazer o mesmo com as festas de cada lugar.
O que dizem os que discordam: Para muitos organizadores, o turismo e o dinheiro público é que mantêm várias festas de pé. Sem patrocínio, transporte e divulgação, celebrações pequenas desapareceriam. Para essa visão, espetáculo e devoção podem conviver sem conflito.
Podem, e muitas vezes convivem. A Constituição manda o Estado proteger “as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras”, e esse apoio é legítimo.
Mas o dinheiro só sustenta o que a comunidade ainda quer celebrar. Nenhum edital substitui o devoto que cumpre a promessa todo ano. A melhor política cultural continua sendo uma festa cheia de gente que acredita no que celebra.


