Fé

Espiritismo no Brasil: de Allan Kardec aos centros espíritas

A doutrina publicada na França em 1857 chegou à Bahia em 1865; a Federação Espírita Brasileira, criada em 1884, reúne hoje as federações estaduais.

Ilustração abstrata de uma rosácea de vitral ou de uma arcada de janelas ogivais, em vinho, dourado e tons de linho (imagem provisória)
Imagem provisória, a ser substituída pela ilustração ou fotografia definitiva antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 18 de abril de 1857, o professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail publicou em Paris O Livro dos Espíritos. Ele assinou a obra com o pseudônimo Allan Kardec. O livro é a base do espiritismo, também chamado de kardecismo.

Kardec reuniu ali respostas que, segundo ele, foram dadas por espíritos em sessões com médiuns. Depois vieram O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Os espíritas chamam esse conjunto de Codificação.

O que os espíritas acreditam

O espiritismo afirma a existência de Deus e a imortalidade da alma. Ensina que o espírito volta a viver em novos corpos, a reencarnação, para evoluir moralmente. Também sustenta que os espíritos podem se comunicar com os vivos por meio de médiuns. A moral do Evangelho de Jesus é a referência de conduta.

Como chegou ao Brasil

As ideias de Kardec chegaram cedo ao país. Em 1865, em Salvador, Luís Olímpio Teles de Menezes fundou um grupo de estudos espíritas. Historiadores o apontam como o primeiro do Brasil.

Em 2 de janeiro de 1884, foi fundada no Rio de Janeiro a Federação Espírita Brasileira (FEB). Seu fundador, Augusto Elias da Silva, já editava a revista Reformador, criada em 1883 e publicada até hoje.

A doutrina enfrentou resistência. O Código Penal de 1890 punia quem praticasse “o espiritismo, a magia e seus sortilegios” com prisão de um a seis meses e multa.

Como se organiza

A FEB tem sede administrativa em Brasília e sede histórica no Rio. Em 1949, um acordo conhecido como Pacto Áureo buscou unificar o movimento. Hoje, as federações de todos os estados e do Distrito Federal formam o Conselho Federativo Nacional da FEB, que se reúne uma vez por ano.

A base do movimento é o centro espírita, uma associação local. Um guia aprovado pelo conselho, o Orientação ao Centro Espírita, pede a “total ausência de imagens, símbolos, rituais”. O texto diz ainda que toda atividade doutrinária deve ser gratuita.

Nos centros há palestras públicas, grupos de estudo, reuniões mediúnicas e aulas para crianças e jovens, chamadas de evangelização. Uma prática comum é o passe, a imposição de mãos que os espíritas descrevem como transmissão de energias para o bem-estar de quem recebe. Muitos centros também mantêm serviços de assistência e promoção social.

Chico Xavier

O espírita mais conhecido do país é Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier (1910-2002). Ele nasceu em Pedro Leopoldo (MG) e morou em Uberaba (MG) a partir de 1959. Publicou centenas de livros que atribuía a espíritos. Entre os títulos dele editados pela FEB, o mais lido é Nosso Lar, que o médium atribuía ao espírito André Luiz.

No Censo 2022, 1,8% das pessoas com 10 anos ou mais se declararam espíritas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para divulgar os dados, o instituto agrupa as diferentes linhas do espiritismo em uma só categoria.

O que diz a FEB: A federação apresenta sua missão na página institucional. O primeiro objetivo é “promover o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo, com base nas obras da Codificação de Allan Kardec e no Evangelho de Jesus”. Inclui ainda a prática da caridade “espiritual, moral e material” e a união do movimento espírita.

O espiritismo chegou ao Brasil há mais de 160 anos e se espalhou por centros em todo o país. Conhecer sua história ajuda a entender uma tradição presente na vida religiosa e na assistência social brasileira. Também ajuda a distinguir o kardecismo de outras religiões que trabalham com mediunidade, como a umbanda.

Fontes