Educação

Paraná amplia escolas cívico-militares; STF ainda não decide sobre SP

Paraná terá 345 colégios cívico-militares em 2026, enquanto a ação sobre a lei paulista segue parada no STF desde o pedido de vista de maio.

Quatro alunos de boina vermelha e farda azul-clara, vistos de costas, observam o mar e uma embarcação durante um exercício naval
Alunos do Colégio Cívico-Militar Batalha do Riachuelo assistem à Operação Fortaleza, exercício da Marinha, em 2022.Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O Paraná terá 345 colégios cívico-militares em 2026, com 33 unidades novas. A informação é da Agência Estadual de Notícias do Paraná (AEN), que cita a Secretaria de Estado da Educação (Seed). O Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não decidiu se a lei paulista que criou o modelo é constitucional.

O Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim) foi criado por decreto em 2019, no governo de Jair Bolsonaro. Em julho de 2023, o Ministério da Educação (MEC) anunciou o encerramento progressivo do programa, que tinha 216 escolas. Cada rede de ensino passou a decidir o destino das suas unidades.

Os estados seguiram sozinhos

Em 2023, Paraná, Santa Catarina, Pará e Acre decidiram manter o modelo, segundo reportagem da época publicada pela Exame. Cada governo, porém, conta as escolas de um jeito.

Escolas cívico-militares por estado, com dados de 2025 e 2026 Unidades informadas por governos e pela imprensa; a forma de contagem varia

Estado Escolas Situação
Paraná 345 Colégios em 2026, com mais de 230 mil alunos
Mato Grosso 263 Rede estadual, segundo a Seduc-MT
São Paulo 100 Aprovadas pelo governo estadual em 2025
Goiás 82 Colégios estaduais da Polícia Militar
Minas Gerais 9 Programa suspenso pela Justiça

Fonte: AEN; Seduc-MT, em nota reproduzida pela imprensa; Gazeta do Povo (2025); Revista Sociedade Militar (2026); O Tempo (2026). Elaboração: redação.

O Supremo ainda não decidiu

A lei paulista é questionada no STF pelo PSOL e pelo PT, nas ações diretas de inconstitucionalidade (ADI) 7662 e 7675. Em novembro de 2024, o ministro Gilmar Mendes, relator, cassou uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que suspendia a lei. Em setembro de 2025, o plenário referendou a decisão por unanimidade.

Em 26 de maio de 2026, o plenário começou a julgar o mérito, ou seja, se a lei é constitucional. O ministro Cristiano Zanin pediu vista, e o caso parou. Até agora, só Mendes votou. Para ele, a lei é válida, mas com limites. Segundo o voto, “todas as atividades estritamente pedagógicas devem ser ministradas por professores, e não por monitores militares”.

Ele também propõe que os diretores sejam civis e que os gastos do programa não contem como despesa em educação. Segundo o Brasil de Fato, o julgamento deveria voltar em até 90 dias. Não encontramos notícia de nova sessão até esta data.

Em Minas Gerais, o caso passou por outras instâncias. O Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) determinou a paralisação do programa. Em 14 de agosto de 2026, o presidente do STF, Edson Fachin, negou o pedido do governo de Mateus Simões (PSD) para reverter a suspensão. Ele não analisou se o modelo é constitucional.

Os argumentos

Defensores falam em disciplina e resultado. No Paraná, pesquisa da Seed aponta que 81% dos pais associam o modelo à melhora da disciplina dos filhos.

Críticos questionam a base legal e o efeito pedagógico. A presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Fátima Silva, afirmou em 27 de maio de 2026: “É um modelo autoritário, que anula os corpos, persegue o pedagógico e tira a alegria de viver”. A entidade também diz que recursos da educação, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), pagam militares da reserva.

Um artigo da Revista NECAT, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicado em março de 2026, comparou escolas catarinenses antes e depois da militarização. Segundo os autores, o modelo “não teve impacto significativo no desempenho escolar” no ensino fundamental. No médio, eles sugerem resultado pior, com impacto negativo de 6,3% no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em relação a escolas semelhantes.

O que diz o governo de São Paulo: Ao sancionar a lei, em maio de 2024, Tarcísio de Freitas disse que a meta é “fazer com que a disciplina ajude a ser um vetor da melhoria da qualidade de ensino”, segundo a Agência Brasil. Esta reportagem não teve nova resposta do governo; a posição citada é pública.

Em 2023, o ministro da Educação, Camilo Santana, disse que criar novas escolas “não será nem prioridade nem estratégia do MEC, neste governo”. Na eleição presidencial, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) propõe “ampliar escolas cívico-militares e o ensino em tempo integral”, segundo o plano de governo divulgado nesta sexta-feira (23).

O que vem a seguir

O caso paulista aguarda o voto de Zanin. Em Minas, a suspensão continua valendo. Os dados disponíveis ainda não mostram se a escola cívico-militar ensina mais. Os números de disciplina citados vêm de pesquisa do próprio governo do Paraná.

Como fizemos: Reunimos notas oficiais, decisões do STF e reportagens publicadas entre 2023 e 23 de outubro de 2026, acessadas em 23/10/2026. Os números de escolas por estado vêm de fontes diferentes e contam coisas diferentes: unidades em funcionamento, aprovadas ou cadastradas. Não fizemos cálculo próprio. Um estudo sobre Goiás, citado pela imprensa, ficou fora por não termos o texto original.

Fontes