Música sacra no Brasil: do barroco mineiro aos hinários evangélicos
Missas de Minas e do Rio colonial, a obra do padre José Maurício e os hinários protestantes formam uma tradição que ainda soa em igrejas e festivais.

De 24 de julho a 1º de agosto de 2026, Juiz de Fora (MG) recebeu o 37º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. A edição, gratuita e organizada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), homenageou a cantora Joaquina Lapinha, morta há 200 anos. O festival é uma das portas de entrada para um repertório nascido nas igrejas do Brasil colônia.
Os compositores de Minas
No século 18, Minas Gerais viveu uma intensa vida musical ligada ao calendário católico. Sociedades musicais mineiras mantiveram parte desse repertório por mais de dois séculos. Mas ele só ganhou projeção nacional depois de 1944, quando o musicólogo Francisco Curt Lange começou a pesquisá-lo.
Alemão radicado no Uruguai, Lange chamou o conjunto de Escola de Compositores Mineiros de Música Religiosa do Século XVIII. A informação é do musicólogo Régis Duprat, da Universidade de São Paulo (USP).
O nome mais conhecido dessa geração é José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746–1805). Sua Antífona de Nossa Senhora, uma Salve Rainha, é chamada por Duprat de “pequena mas incomparável obra-prima”. Os manuscritos reunidos por Lange estão hoje no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.
Lange usou a expressão “mulatismo musical” ao descrever esses artistas, muitos deles mulatos. Uma tese da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de 2022, relê esse trabalho. Para a autora, Lange via a música como caminho de emancipação, mas os documentos mostram mais “dependência e subordinação”.
José Maurício e a Capela Real
No Rio de Janeiro, o destaque é o padre José Maurício Nunes Garcia. Ele nasceu em 1767, filho de um casal de pardos libertos, e morreu em 1830. Em 1791, para ser ordenado, precisou pedir dispensa do chamado “defeito de cor”.
Em 1798, tornou-se mestre de capela da Sé do Rio de Janeiro, isto é, o responsável pela música da catedral. Com a chegada da corte portuguesa, em 1808, Dom João o nomeou mestre da Capela Real. Entre suas obras está a Missa de Réquiem de 1816. Ele também regeu a primeira audição no Brasil do Réquiem de Mozart, segundo o pesquisador André Cardoso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
No século 20 e nas igrejas evangélicas
Heitor Villa-Lobos também escreveu música sacra. Sua Missa São Sebastião, para vozes iguais e sem acompanhamento, foi escrita para o Orfeão dos Professores, no Rio de Janeiro.
Entre os protestantes, os hinários são o centro da tradição. O Salmos e Hinos, de 1861, foi o primeiro hinário evangélico registrado no país, segundo a Billboard Brasil. A coleção foi organizada pela missionária Sarah Kalley. Em 1922, a Assembleia de Deus lançou em Recife a primeira edição da Harpa Cristã.
Como ouvir hoje
Em São João del-Rei, a Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776, e a Orquestra Ribeiro Bastos seguem ativas nas celebrações religiosas. Na Semana Santa, a cidade mantém o Ofício de Trevas, cantado inteiramente em latim, segundo o jornal Estado de Minas. Em 2009, o toque dos sinos em Minas Gerais virou patrimônio imaterial brasileiro.
O que diz a UFJF: No programa do 37º festival, a universidade chama Joaquina Lapinha de “a primeira grande cantora lírica brasileira a se apresentar profissionalmente na Europa”. O texto informa que toda a programação foi gratuita.
O repertório sacro brasileiro não está apenas em arquivos. Ele soa em missas, cultos, concertos e gravações. Segundo Duprat, as primeiras gravações das obras mineiras no Brasil foram feitas em 1957, pela Orquestra Sinfônica Brasileira. Para quem quer conhecer, um bom começo é ouvir Lobo de Mesquita e José Maurício lado a lado.
Fontes
- Programa do 37º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga — UFJF
- O legado de Francisco Curt Lange (1903-1997), de Régis Duprat — Revista Brasileira de Música
- Serro e Diamantina coloniais: uma releitura da prática musicológica de Curt Lange — Repositório UFMG
- Introdução ao Gradual de Nossa Senhora Virgo Dei Genitrix, de André Cardoso — Revista Brasileira de Música, UFRJ
- Missa São Sebastião: unidade, rapsódia ou engenho?, de Marco Antonio da Silva Ramos — ECA-USP
- Conheça a Harpa Cristã, considerada a “bíblia cantada” — Billboard Brasil
- Kalley, Sarah Poulton (1825-1907) — Portal Luteranos
- São João del-Rei poderá se tornar capital nacional da arte sacra — Estado de Minas
- Toque dos sinos em Minas Gerais — Bem Brasileiro, Iphan


